Populismo e democracia

O populismo é um termo de luta política que é usado para denunciar

12 Ago 2017 / 02:00 H.

Hoje, nenhum político ousaria fazer uma campanha eleitoral prometendo apenas

aos seus eleitores “ sangue, suor, lágrimas”, consciente que, na verdade, é somente isso que tem para oferecer nos tempos mais próximos. Por esse caminho, pelo caminho da verdade, nunca ninguém conseguiu até hoje ser eleito. Assim, o único objectivo é ganhar o voto e o poder. Depois, logo se vê.

Nos últimos tempos, o mundo ocidental tem sido atravessado por alarmes do chamado “populismo”. Mas o que é o populismo? Trata-se daquele momento em que um líder político concentra as esperanças da massa popular colocando habitualmente em causa as instituições que numa determinada sociedade servem para regular e equilibrar os diferentes poderes. Todo o poder fica concentrado no “chefe) que, em seguida, de uma forma mais ou menos ditatorial, administra de acordo com a sua vontade. Para isso, duas realidades essenciais tiverem de se conjugar: em primeiro lugar, o descrédito das instituições da vida social; depois o líder teve de falar às massas para lhes dizer aquilo que lhes agrada - e hoje não é difícil de o fazer: basta encontrar dois ou três pontos de batalha, simples e directos, que a comunicação social reproduza (negativa ou positivamente, pouco importa) e que soem bem aos ouvidos da maioria.

O populismo é portanto um termo de luta política que é usado para denunciar adversários políticos e que é demasiado vago e, por consequência, aplica-se a todas as figuras políticas.

Do ponto de vista teórico, o populismo justapõe-se de modo fundamental à democracia liberal e não à democracia per si ou a outro qualquer modelo de democracia. Empiricamente, os agentes populistas mais relevantes procedem à mobilização num contacto democrático liberal, isto é, num sistema que é, ou aspira a ser, democrático liberal. Embora este foco seja específico e obviamente limitado, significa que nós consideramos a democracia liberal isenta de falhas.

A discussão acerca do populismo diz respeito, não apenas ao que este é mas até se este sequer existe. É, verdadeiramente, um conceito contestado quanto à sua essência. Em diferentes partes do globo o populismo tende a ser equiparado, e por vezes confundido, com fenómenos bastante destintos. Por exemplo, no contexto europeu, populismo refere-se frequentemente a anti-imigração e xenofobia, ao passo que na agora América Latina, muitas vezes, diz respeito a clientelismo e má gestão económica.

Parte da confusão deriva do facto do populismo ser um rótulo raras vezes usado pelas próprias pessoas ou organizações. Ao invés, é aplicado por terceiros, a maioria das vezes com uma conotação negativa. Mesmo os poucos exemplos consensuais de

populismo, como o Presidente Argentino Juan Domingo Perón ou o político holandês assassinado Pim Fortuyn, não se identificavam a si próprios como populistas. Como o populismo não pode reivindicar um texto definidor ou um caso paradigmático, os académicos e os jornalistas usam o termo para referir fenómenos muito diferentes e por isso não menos complexos.

A sua complexidade advém da necessidade de ter em conta vários factores estruturais que podem explicar os diferentes níveis de sucesso do fenómeno. Um dos mais importantes tem que ver com a questão da imigração. Como os cidadãos têm uma tendência natural para se associarem a outros semelhantes a si mesmos, o aparecimento de elevado número de estrangeiros, de forma súbita, toca na ferida da xenofobia. Estes forasteiros tendem a ser vistos como uma ameaça à identidade cultural e às oportunidades económicas da sociedade local. A percepção de que as elites não estão a proteger adequadamente o povo (ou não querem mesmo fazê-lo) leva os eleitores a procurarem um populista que os defenda- tanto dos imigrantes, como das próprias elites aparentemente corrompidas.

Uma abordagem mais recente considera o populismo, como uma estratégia política empregada por um tipo específico de líder que procura governar recorrendo ao

apoio directo e não mediado das bases. É especialmente popular entre os estudiosos das sociedades latino-americanas e não ocidentais. A abordagem enfatiza o facto de o populismo implicar a emergência de uma figura forte e carismática que concentre o poder e mantêm uma ligação directa às massas. Visto desta perspectiva, o populismo não pode perdurar no tempo, pois o líder acabará por morrer e é inevitável que a determinação da sucessão constitua um processo conflituoso.

Uma abordagem final considera o populismo predominantemente como um estilo folclórico da política, de que líderes e partidos fazem uso para mobilizar as massas.

Esta abordagem é popular em especial nos estudos de comunicação (política), assim como nos media. Neste entendimento, o populismo refere-se a uma conduta política amadora e não profissional que visa captar ao máximo a atenção dos media e o apoio popular. Ao desrespeitarem o protocolo de vestuário e linguagem, os agentes populistas conseguem apresentar-se a si próprios como diferentes e originais mas também como líderes corajosos que se identificam com o “ povo”, em oposição à “elite”.

Ao certo, o Ocidente, está a presenciar uma enorme revolta política e por isso compreender todas as facetas deste fenómeno com raízes no séc. XIX e cujas

ocorrências testemunhamos todos os dias.

O populismo é, portanto, a situação em que, de uma ou outra forma, já vivemos há muito no ocidente. Hoje, eventualmente, ele aparece mais claro nalgumas das figuras que se apresentam a eleições na Europa ou na América do Norte. Mas é importante darmo-nos conta que não basta a figura do líder e a sua empatia com as massas. É essencial que as instituições sociais estejam desgastadas. Que elas sejam olhadas com desconfiança. Que sejam vistas como corruptas. Que sejam encaradas como parte do problema e não como uma parte da solução.

Como vemos, a comunicação social, (e o seu sucedâneo que são as redes sociais, que trabalham com a mesma lógica, só que multiplicam ao infinito os “fazedores de notícias”) é hoje essencial para’ o populismo. Não existe populismo sem comunicação social. Ao arvorar-se em juiz de todas as realidades, denunciado publicamente “ou criando” todos os erros e pecados a que for possível ter acesso, os media acabam por desacreditar tudo e todos. E, mesmo clamando contra as ideias populistas, acabam por lhes fazer publicidade e por se lhes oferecer como berço.

Seria hoje impensável um mundo sem comunicação social. Mas o caminho que estamos a percorrer é simplesmente o de “brincar com o fogo”.

José A. Roque Martins