A liberdade (das novas gerações) que não fica numa garagem
Li há dias um estudo que dizia que apenas 27% dos jovens portugueses entre os 18 e os 29 anos associam ter um carro à independência. Para muitos deles, independência é sobretudo ter liberdade financeira. E há quem prefira ter acesso a transportes a ter um carro próprio. Fiquei a pensar nisto porque, para a minha geração, era precisamente o contrário. Tirar a carta era quase um ritual, uma conquista! Aos 15/16 anos aprendíamos a conduzir no carro dos nossos pais, uma vez com eles outras às escondidas e, pouco depois, começávamos a pensar no primeiro carro. Não tinha de ser novo, nem bonito. Às vezes nem sequer era grande coisa. Mas era nosso. E isso queria dizer muito. Um carro era a possibilidade de ir embora quando nos apetecesse. Não depender dos pais, não pedir boleia, não esperar por ninguém. Era liberdade. Hoje, percebo que talvez a liberdade possa ser outra coisa.
Dou por mim a valorizar cada vez menos aquilo que posso comprar e cada vez mais aquilo que posso viver. Uma viagem. Um sítio onde nunca estive. Uma conversa que me ensina qualquer coisa. Um jantar que fica na memória. Um concerto. Uma paisagem. A descoberta de uma rua numa cidade onde nunca tinha posto os pés. São coisas que não ficam numa garagem. Não precisam de seguro. Não ocupam espaço em casa. Mas ficam connosco. E talvez seja por isso que, com o tempo, me tenha tornado menos interessado em acumular coisas. Não é que tenha deixado de gostar delas. Gosto de comprar, de escolher, de chegar a casa com uma coisa nova. Há sempre aquele pequeno entusiasmo. O problema é que passa depressa. Um carro começa a desvalorizar no dia em que o tiramos do stand. Um telemóvel torna-se velho antes de termos tempo de nos cansarmos dele. Uma peça de roupa deixa de nos entusiasmar. Aquela coisa que queríamos tanto acaba, muitas vezes, esquecida numa gaveta.
As experiências são diferentes. Uma viagem pode valer mais dez anos depois do que no dia em que aconteceu. Não em dinheiro, obviamente. Noutra moeda. Na memória. É aquela fotografia que aparece no telemóvel e nos faz parar. É uma história que ainda contamos. É uma pessoa que conhecemos por acaso. É uma comida que provámos pela primeira vez. É a sensação de termos estado num lugar que, até então, só existia na nossa imaginação.
Talvez seja esta uma das coisas que os mais novos estão a perceber antes de nós, não é obrigatório possuir tudo aquilo de que gostamos. Podemos querer conhecer um país sem querer comprar uma casa lá. Podemos gostar de conduzir sem precisar de ter um carro. Podemos preferir viajar a trocar de televisão. Podemos gastar dinheiro numa experiência sabendo perfeitamente que, no dia seguinte, não teremos nada para pôr numa prateleira.
Os objetos perdem valor com o tempo. As memórias, regra geral, ganham. Claro que também há aqui uma parte menos romântica. Há jovens que dizem não querer determinadas coisas porque, simplesmente, não conseguem pagar por elas. Uma casa tornou-se demasiado cara. Um carro custa demasiado. A estabilidade profissional demora mais a chegar. Não devemos transformar falta de possibilidade numa escolha de estilo de vida. Mas talvez exista, ao mesmo tempo, uma mudança verdadeira naquilo que consideramos importante. Durante muito tempo ensinaram-nos que uma vida bem sucedida era uma vida com coisas. Uma casa, um carro, um bom emprego, alguma estabilidade.
Hoje talvez seja cada vez mais uma vida com tempo, lugares, pessoas e histórias. Não sei se é melhor. Sei que é diferente e eu gosto mais assim. E, olhando para o que ainda quero fazer, percebo que as coisas que mais me entusiasma ter pela frente não cabem numa garagem. São viagens que ainda não fiz, lugares que ainda não conheço e histórias que ainda não vivi. No fundo, talvez a pergunta não seja o que queremos ter.
Talvez seja o que queremos levar connosco.
Frases soltas:
A paróquia de Machico celebra este fim de semana, a 5 e 6, a Festa de São Roque. Não atrai influencers nem entra em nenhum ranking de tendências. É apenas mais uma daquelas festas que se repetem há gerações porque alguém, todos os anos, se dá ao trabalho de as manter de pé. Enquanto discutimos o futuro do turismo, é isto que continua a fazer a identidade da ilha.
A Bordal apresentou uma nova coleção inspirada no Vinho Madeira com o nome “A vindima”. Vale a pena reparar no gesto, pegar em duas coisas antigas, o bordado e o vinho, e obrigá-las a conversar uma com a outra em 2026. É assim que uma tradição sobrevive, não dentro de uma vitrina, mas a arriscar-se em produtos novos que alguém queira comprar.