Netanyahu processa órgãos e jornalistas que noticiaram avisos sobre os ataques do 7 de Outubro
O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, processou ontem por difamação dez órgãos de comunicação social e jornalistas de Israel que noticiaram avisos prévios do Egito e Emirados Árabes Unidos sobre os ataques do Hamas em 07 de outubro de 2023.
"Foi apresentada uma ação por difamação perante este Tribunal, examinando específica, minuciosa e claramente duas acusações de calúnia de sangue", segundo a queixa apresentada por Netanyahu no Tribunal Distrital de Jerusalém, divulgada ontem pelo seu partido, Likud.
Em causa, estão as notícias publicadas inicialmente no começo do mês pelo jornal israelita Haaretz sobre avisos dos Emirados Árabes Unidos dirigidos a Netanyahu para a iminência dos ataques dos islamitas palestinianos contra Israel.
Nos últimos dias, os órgãos norte-americanos The Wall Street Journal e The Atlantic deram conta de alertas no mesmo sentido da parte dos serviços de informações egípcios.
As notícias foram posteriormente difundidas ou confirmadas pela imprensa internacional e também por vários órgãos israelitas, apesar dos repetidos desmentidos de Netanyahu.
Segundo o Likud, o primeiro-ministro processou o Haaretz, o jornal mais antigo do país, o Yedioth Ahronoth e a sua versão digital, YNet, os mais lidos, e o Canal 12, o mais visto.
Os profissionais processados individualmente são Shlomi Eldar, Ruth Yuval e Uri Misgav, do Haaretz, Nadav Eyal, do Yedioth Ahronoth, Barak Ravid, do portal norte-americano Axios, comentador da CNN e correspondente do Canal 12, e o jornalista Attila Somfalvi.
A queixa alega duas "calúnias de sangue" distintas nos seus trabalhos jornalísticos.
A primeira relacionada com uma alegada chamada telefónica de 45 minutos do Presidente dos Emirados, Mohammed bin Zayed al-Nahyan, para Netanyahu uma semana e meia antes dos ataques do Hamas e que teria sido ocultada pelo chefe do Governo aos altos oficiais militares israelitas.
A outra segue a mesma linha, mas no que diz respeito a um contacto do chefe dos serviços de informações egípcios junto do primeiro-ministro israelita, poucos dias antes de as milícias palestinianas atacarem o sul de Israel, matando cerca de 1.200 pessoas.
Netanyahu exige o pagamento de, pelo menos, 2,6 milhões de shekels (cerca de 750 mil euros) no processo por difamação.
Ao longo da queixa, as informações contidas nos artigos, reportagens e colunas dos órgãos de comunicação social e jornalistas citados no processo são descritas como "absurdas", "invenções" e um "marco na contaminação do discurso democrático", entre outras contestações.
"Não é coincidência que estas mentiras estejam a ser espalhadas agora, em vésperas de eleições, por rivais políticos e atores estrangeiros hostis", escreveu Netanyahu na rede social X, referindo-se às legislativas de 27 de outubro em Israel, cujas sondagens colocam em dúvida a sua reeleição.
Em comunicado, o gabinete do chefe do Governo alegou na segunda-feira que Netanyahu "não se encontrou nem falou com Abbas Kamel, que na altura chefiava o Serviço Geral de Informações do Egito", antes dos ataques.
Do mesmo modo, afirmou que, nos meses que antecederam os ataques liderados pelo Hamas, "nenhum oficial dos serviços de informações israelitas transmitiu um alerta egípcio ao primeiro-ministro".
Numa visita não anunciada, Netanyahu deslocou-se no domingo aos Emirados para se reunir com Mohammed bin Zayed al-Nahyan.
De acordo com uma fonte citada pela agência Associated Press (AP), que foi informada do conteúdo dos contactos, o encontro serviu para Netanyahu pedir ao Presidente dos Emirados que desmentisse o aviso prévio das autoridades do país árabe sobre os ataques do Hamas.
Em resposta, o gabinete de Netanyahu, que anteriormente tinha mantido a realização da visita em segredo, classificou na segunda-feira à noite as informações da AP como uma "notícia falsa" e alegou que a deslocação "teve como foco exclusivo o reforço das relações entre os dois países e a resolução dos desafios regionais".
No mesmo dia, o serviço de segurança interna de Israel (Shin Bet) interpôs uma ação judicial contra o Canal 12 por "grave violação da censura", depois de a emissora ter noticiado o encontro do primeiro-ministro israelita com Mohammed bin Zayed al-Nahyan.
O gabinete de Netanyahu anunciou ter solicitado esta ação junto do chefe do Departamento de Censura Militar para que o Canal 12 seja processado com todo o rigor da lei, pois "a notícia pôs em risco a vida do primeiro-ministro e da sua mulher, bem como a da delegação que o acompanhava", incluindo elementos do Shin Bet e do serviço de informações externas, Mossad.
Segundo a imprensa israelita, os principais líderes da oposição reuniram-se no sábado e um dos temas em que chegaram a acordo foi a criação de uma comissão de inquérito estatal ao 07 de Outubro após as eleições.