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Afectados desesperam por respostas e assistência após três meses dos sismos na Venezuela

Foto Arquivo/EPA/MIGUEL GUTIERREZ
Foto Arquivo/EPA/MIGUEL GUTIERREZ

Três meses após o duplo sismo que afetou a Venezuela, alguns afetados continuam a queixar-se da falta de habitação, medicamentos, serviços básicos e de uma resposta institucional que muitos consideram insuficiente.

À região chegou ajuda humanitária enviada por vários países e organizações e embora tenham sido distribuídos bens de primeira necessidade, artigos de higiene pessoal e até medicamentos, há famílias afetadas que continuam à espera de assistência social.

"Em segundos tudo, tudo desabou. Perdemos vizinhos e amigos, e alguns também os familiares. Damos graças a Deus porque ficámos vivos, mas tudo parece um pesadelo que ficou congelado no tempo. Para onde olhamos, tudo nos lembra o que aconteceu, precisamos de ajuda para poder superar e para avançar", desabafou um afetado à agência Lusa.

Emanuel Blanco residia em Praia Grande, perto da capital, Caracas, uma localidade que não quer deixar porque lhe disseram que vão ser dados apoios do Estado para refazer as suas vidas.

"Somos três pessoas na família e estamos [praticamente] sozinhos. Sem ajuda, não conseguiremos retomar as nossas vidas. Tenho medo de abandonar a zona porque posso perder essa oportunidade, mas já passaram três meses, ainda estão a demolir os prédios e não sei quanto tempo mais terei de esperar. Aqui não há emprego e sobreviver assim é difícil", disse.

Frisou que "apesar de às vezes chegarem bolsas com algumas ajudas, são precisas soluções duradouras, habitação, médico e acesso a serviços básicos".

Em contraste,com a situação em Praia Grande, vários residentes de Catia La Mar, que pediram para não ser identificados, referiram que têm familiares cujos prédios foram visitados por engenheiros estatais e incluídos em programas de recuperação.

"As pessoas pensam que o Governo vai dar dinheiro para reconstruir, mas não. Uma vez inspecionados os edifícios que se podem recuperar, ficam em lista para reparar, depois chegam as equipas com os materiais e executam as obras", disse um dos sobreviventes à Lusa.

O duplo sismo de 24 de junho, com magnitudes de 7,3 e 7,5, causou danos graves em infraestruturas (habitações, escolas, centros de saúde e espaços comunitários), feridos e vítimas mortais em sete estados da Venezuela: Caracas, Miranda, Arágua, Carabobo, Lara, Yaracuy e La Guaira, este último o mais afetado.

Nos dias posteriores ao sismo, organizações internacionais e de solidariedade de vários países enviaram ajuda humanitária de emergência que incluiu alimentos, medicamentos, produtos de higiene, água, ferramentas e materiais de reconstrução.

A ajuda enviada de Portugal foi uma das que teve mais visibilidade. A Cruz Vermelha Portuguesa mobilizou uma campanha humanitária e organizou uma recolha de ajudas. A Força Operacional Nacional Conjunta (FOCON) foi mobilizada para operações de emergência e a Força Aérea transportou parte dos bens, entre eles duas ambulâncias, ferramentas para remoção de escombros e apoio de busca e salvamento.

Participaram também organizações como a Oikos - Cooperação e Desenvolvimento e a Associação Amigos da Diáspora e dos Emigrantes Madeirenses (AADEM), que prestaram apoio logístico e forneceram materiais às comunidades afetadas, especialmente em zonas com população luso-venezuelana ou com forte presença de solidariedade comunitária.

Houve ainda duas doações importantes de medicamentos: uma de oito toneladas e outra de três, incluindo antibióticos, analgésicos, antipiréticos e fármacos para doenças crónicas. 

No entanto, três meses depois do sismo, continua a dúvida se a ajuda humanitária enviada tem sido suficiente. Em várias comunidades afetadas, a prioridade continua a ser a habitação, uma vez que continuam a viver em abrigos improvisados, com infraestruturas precárias.

Em paralelo, aumentou o número de pessoas com trauma emocional, medo e ansiedade, uma situação que levou a organização Assistência Médica Internacional (AMI), de Portugal, a prolongar de dois meses para quatro o tempo de permanência no país para continuar a prestar ajuda psicológica à população de La Guaira.

Segundo o último balanço atualizado divulgado pelas autoridades, 6.509 pessoas morreram e 226.696 feridos foram assistidos nos hospitais venezuelanos depois dos sismos.

Entre as vítimas mortais, há pelo menos 138 portugueses e lusodescendentes.

Pelo menos 190 edifícios colapsaram e as autoridades inspecionaram 60.785 habitações, das quais 11.001 foram consideradas de "alto risco" e 25.240 casas estão inabitáveis.