Vereadora em Lisboa diz que sistema Volta põe em causa trabalho social devido ao "dinheiro fácil"
A vereadora com o pelouro das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo na Câmara de Lisboa disse hoje que o sistema de embalagens Volta veio expor a pobreza e comprometer o trabalho dos técnicos sociais, devido ao "dinheiro fácil".
"O Volta o que veio também trazer é que, muitas vezes, o trabalho que é feito pelos técnicos no terreno é posto em causa sempre que existem mecanismos de dinheiro fácil, porque não se trata da inexistência de respostas, trata-se naturalmente de um acompanhamento personalizado que tem que haver de acordo com a vulnerabilidade", afirmou a vereadora Maria Luísa Aldim (CDS-PP), na reunião da Assembleia Municipal de Lisboa (AML).
A responsável pelo pelouro das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo respondia ao deputado único do PAN, António Morgado Valente, que lembrou as declarações recentes do presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Carlos Moedas (PSD), a pedir o cancelamento do sistema Volta, com o reembolso de 10 cêntimos por embalagem, afirmando que tal gerou "um drama social" na cidade.
"Na realidade, o Volta só veio mostrar, de uma forma muito clara, que há pobreza extrema em Lisboa. Por outro lado, parece que o problema crónico dos últimos cinco anos da higiene urbana nunca existiu e que as centenas de pessoas em situação de sem-abrigo apareceram agora porque existe o Volta", afirmou o eleito do PAN, questionando a CML sobre o que tem feito para combater a pobreza.
Em resposta, a vereadora Maria Luísa Aldim disse que o combate à pobreza é uma preocupação que "o Volta veio espelhar" em Lisboa.
"Não existe nenhuma intenção, e muito menos alguma ação, para esconder as pessoas em situação de vulnerabilidade e, portanto, a atuação do município, os protocolos que temos feito, as propostas que temos levado a aprovação de câmara, têm sido todas no sentido de encontrar respostas que possam, precisamente, acolher estas situações e, de alguma maneira, conseguir autonomizar sempre que possível", afirmou a autarca do CDS-PP, destacando o investimento municipal no apoio às pessoas em situação de sem-abrigo.
Quanto ao combate à pobreza, Maria Luísa Aldim realçou a resposta da rede social e do Fundo de Emergência Social (FES) destinada a famílias e Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), bem como os protocolos sociais celebrados com várias associações, referindo que "as vulnerabilidades são diversas", o que exige "um olhar cuidado".
Sobre o impacto do sistema Volta, a responsável pelo pelouro das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo ressalvou que "não vale a pena tentar pôr tudo no mesmo saco, quando os sacos na realidade são bem diferentes caso a caso e merecem verdadeiramente este olhar", assegurando um trabalho articulado e personalizado, com várias equipas e associações no terreno.
A vereadora aproveitou ainda para "agradecer e parabenizar todos os que estão no terreno, porque efetivamente há muitos casos de sucesso", sublinhando que a missão social passa por responder a todas as pessoas em vulnerabilidade para que transitem para "uma situação de normalidade".
Em funcionamento desde 10 de abril, o sistema Volta permite aos consumidores recuperarem o valor de depósito de 10 cêntimos por embalagem pago no ato da compra de garrafas e latas de uso único, de plástico, metal e alumínio e inferiores a três litros, mediante a sua devolução nos pontos existentes para o efeito em Portugal continental, Açores e Madeira.
A recolha e reembolso destas embalagens tem provocado impactos negativos na higiene urbana em Lisboa, bem como em outros municípios, com contentores remexidos ou mesmo despejados na via pública, com o objetivo de se encontrar embalagens para se obter o respetivo reembolso.
Na semana passada, a ministra do Ambiente rejeitou cancelar o sistema Volta, recusando que este seja responsável pelo "drama social" de pessoas a remexer no lixo para recolher garrafas, como denunciou o presidente da CML.