Os filhos que ficam para trás

Todos os anos, milhares de professores fazem as malas. Mudam de escola, de cidade, de rotina, de vida. Não porque queiram partir, mas porque o lugar onde trabalham raramente coincide com o lugar onde vivem, conde constroem a sua vida e a família os espera.

Enquanto tantos discursos falam da importância da família, existe uma profissão inteira a viver a contradição. Ensina-se a importância dos vínculos, enquanto se obrigam famílias a viver à distância. Fala-se de estabilidade, enquanto todos os anos se devolve a incerteza. Defende-se a proximidade, enquanto o trabalho se afasta de casa.

E, tantas vezes, a cada novo ano, a pergunta repete-se: quantos quilómetros desta vez? Quanto tempo na estrada? Quantas horas roubadas à família? Quantas despedidas? Quantos filhos aprendem demasiado cedo que o trabalho pode afastar um pai ou uma mãe?

O professor chega à escola para cuidar dos filhos dos outros, ensinar-lhes, abrir-lhes caminhos, escutar as suas dúvidas, acompanhar os seus medos e acreditar no futuro de cada um deles. E depois regressa a casa, muitas vezes cansado, com menos tempo, menos disponibilidade e presença.

Que estranha forma de cuidar: cuidar dos filhos dos outros enquanto os seus aprendem a esperar. E não se trata de escolher entre ensinar e ser pai ou mãe. Não deveria existir essa escolha. Uma profissão que educa não deveria ser organizada contra a própria possibilidade de educar os seus filhos.

Talvez seja preciso perguntar que valor damos realmente à educação quando desvalorizamos quem a sustenta todos os dias. Porque um professor não transporta apenas conhecimento. Transporta uma família, transporta filhos que ficam à espera, refeições interrompidas, histórias por ouvir, abraços adiados, aniversários vividos com pressa, fins de dia que chegam quando já pouco resta deles. Transporta a culpa de não estar. E, por vezes, aprende a sorrir na sala de aula enquanto a própria vida pede presença do lado de fora do portão da escola.

A profissão continua a ser uma das mais nobres. Mas talvez a nobreza tenha sido confundida com sacrifício. Como se quem escolhe ensinar tivesse de aceitar perder: perder proximidade, estabilidade, momentos que não regressam. Só que os filhos crescem. Não esperam pela próxima colocação. Não esperam pelo concurso seguinte. Não esperam que a escola fique finalmente perto de casa. Crescem enquanto os pais percorrem quilómetros para ensinar outros filhos a crescer.

Talvez uma sociedade que acredita verdadeiramente na família precise começar a olhar para aqueles que todos os dias cuidam dela através da educação. Não basta dizer que os professores são importantes. É preciso organizar a vida de forma a que também possam estar presentes na própria vida. Porque educar os filhos dos outros não deveria significar estar ausente da infância dos seus.

Talvez a verdadeira valorização de um professor comece precisamente na possibilidade de ensinar sem ter de escolher entre a profissão que ama e a família que merece acompanhar.

Sónia Ramos