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Sozinho

Salvador Sobral tomou uma posição pública firme e anunciou, no início do ano, a sua saída do Spotify, sugerindo, desde logo, que os seus seguidores ouvissem a sua música no Qobuz por considerar “a plataforma mais ética de todas”. O miúdo que, com a canção “Amar pelos Dois”, levou Portugal a uma extraordinária vitória no Festival da Eurovisão, quando já poucos acreditavam que algum dia isso pudesse acontecer, deixou a plataforma de streaming na sequência de “movimentos que acusavam o diretor-geral da empresa de ter investido numa startup ligada ao armamento”: “A música não pode ser cúmplice da guerra”, referiu. Concorde-se ou não, tomou a sua posição, mostrou carácter, foi destemido, firme e corajoso. Parou no meio da corrente e falou. Não guardou nada.

Agora, passados alguns meses, Salvador Sobral acabou por recuar e anunciar o seu regresso à plataforma: “Pensei, utopicamente, que conseguia apelar, assim, a um boicote coletivo, com colegas músicos e público. Fui com tudo e, quando olhei para trás, não havia ninguém”. Estava sozinho. Como nós, tantas vezes e em diversas circunstâncias da vida. “Acho que é um Golias demasiado forte para eu enfrentar sozinho”. “Tenho de vender bilhetes, esta é a minha vida”. “Os meus princípios continuam os mesmos, não mudou nada”. “Rabinho entre as pernas, bola para a frente”, disse com grande humildade.

“Quando olhei para trás não havia ninguém”. É algo que nos deve sempre fazer refletir. Essencialmente porque isso nunca poderá ser sinónimo de falta de razão. Não nos devemos deixar arrebanhar. Sinto-me sempre desconfortável nas correntes alucinantes das multidões avassaladoras. Afasto-me. Penso. Reajo, muitas vezes por impulso. Sei que não sou propriamente agradável em determinados momentos, mas não consigo ser de outra forma. Lido mal com o conformismo e com a resignação. Talvez perca simpatias. Mas é a minha natureza. Não posso ser de outra forma. Não podemos renunciar à nossa natureza. Se vale a pena?! Não sei. Confesso que ainda não sei. Talvez o silêncio me protegesse mais. Saber guardar e arrumar as coisas é também uma virtude. Mas admiro muito o impulso rebelde, mesmo que nos empurre para a solidão. Acho, por isso, muito nobre esta firmeza, ainda que solitária, do Salvador Sobral que regressa agora ileso para a corrente que nunca o conseguirá mudar.

Mesmo a corrente que vence, não sequestra a alma, o carácter e a razão. A razão também depende do tempo e da oportunidade. Da gestão que fazemos de tudo. Não queiramos que tudo aconteça no imediato e de uma só vez. Sejamos ponderados, prudentes, inteligentes e pacientes, mas sempre íntegros, firmes, corajosos e fortes, até porque a sociedade é pouco sensível à fragilidade humana, também porque a troça gratuita e a mesquinhez serão sempre armas dos fracos que podem ferir, mas que não matam. Sim, também temos de saber esconder as nossas fraquezas. Os caminhos da vida exigem equilíbrios inteligentes, mas sem nunca deixar de assumir os nossos sonhos e as nossas utopias, mesmo que as tenhamos de gerir por dentro. E, no momento certo, voltaremos a tomar posições profundas, claras e de grande coragem ética. Não podemos deixar que os verdadeiros valores se percam. Não podemos perder a liberdade que alimenta a nossa identidade. Sempre com inteligência e sentido de oportunidade. A decisão certa no momento errado perde-se. Não podemos permitir que a sociedade caminhe apenas em função de pequenos interesses. Não sei se ficaremos para a história, até porque tenho a sensação de que nem sempre é bem contada. Mas sei que não pode ser de outra forma. A solidão faz parte do percurso. Que não se perca a essência e a verdadeira razão das coisas. Contaremos sempre com os que não vão. Com os que não se afastam. Com os que ficam. Com os que regressam limpos. Com os que estão em todos os momentos, mesmo que não estejam fisicamente. Esses sim, serão sempre a razão. O resto acontece naturalmente.