‘Book 2.0’ volta ao CCB com Tolentino entre as vozes de destaque
Encontro internacional dedicado à leitura e à literacia conta com dezenas de oradores de renome
Lisboa recebe, hoje e amanhã, a 4.ª edição do ‘Book 2.0’, o encontro internacional dedicado à leitura e à literacia que este ano se instala no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB). Organizado pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), o evento reúne dezenas de autores, editores, académicos, políticos e criadores em torno do mote ‘Back to Basics. Back to Books.’, um convite a repensar o livro como refúgio de pensamento profundo num tempo de estímulos constantes.
Entre os cerca de quarenta oradores nacionais e internacionais que vão passar pelo palco do CCB, ao longo dos dois dias, destaca-se a presença do cardeal madeirense José Tolentino de Mendonça, actual Prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação no Vaticano, uma das figuras portuguesas com maior projecção internacional na Igreja Católica.
Nascido na Madeira em 1965, Tolentino de Mendonça foi ordenado presbítero no Funchal em 1990 e doutorou-se em Teologia Bíblica em 2004. O seu percurso académico foi extenso: durante mais de duas décadas ligou-se à Universidade Católica Portuguesa, onde foi capelão universitário, docente, director do Centro de Estudos da Faculdade de Teologia, director da própria Faculdade de Teologia e vice-reitor da Universidade. Foi também o primeiro director do Departamento Nacional da Pastoral da Cultura em Portugal e consultor do Pontifício Conselho da Cultura, funções que consolidaram o seu perfil de ponte entre a fé e a cultura contemporânea.
Autor de obra vasta que atravessa a teologia e a literatura, o cardeal foi nomeado pelo Papa Francisco para os cargos de Arquivista e Bibliotecário da Santa Igreja Romana. Ordenado Bispo em Julho de 2018, foi criado Cardeal no Consistório de 5 de Outubro de 2019 e, desde Setembro de 2022, lidera o Dicastério para a Cultura e a Educação, um dos organismos mais relevantes da Cúria Romana.
No ‘Book 2.0’, a intervenção de Tolentino Mendonça está marcada para as 12 horas de amanhã, 16 de Setembro, em sessão que decorrerá em português, sob o título ‘Um Mundo que Avança Mais Depressa do que os Seus Valores’. A escolha do tema não é inocente: insere-se no segundo dia do programa, dedicado ao bloco ‘Educação e a Voz Humana’, que explora como a leitura, a narrativa e a criatividade humana respondem aos desafios de um tempo marcado pela reformulação acelerada do conhecimento e da identidade. A intervenção do cardeal antecede a sessão de encerramento da manhã, ‘Uma Nação que Lê’, protagonizada pelo Presidente da República, António José Seguro.
A presença de Tolentino Mendonça surge num programa que junta, ao longo dos dois dias, nomes como a ex-primeira-ministra finlandesa Sanna Marin, o ex-Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, o ex-CEO da Penguin Random House Markus Dohle, a CEO do Grupo Feltrinelli Alessandra Carra, ou o subdirector-geral da UNESCO para a Educação, Qun Chen, entre muitos outros responsáveis do sector editorial, da cultura e da política.
O ‘Book 2.0’ 2026 organiza-se em torno de quatro grandes eixos temáticos: o regresso aos livros; a relação entre cultura, educação, economia e saúde; os direitos de autor face à inteligência artificial; e a ligação entre democracia e liberdade. É precisamente neste cruzamento entre pensamento crítico, fé e cultura contemporânea que a voz do cardeal madeirense ganha particular relevância, na medida em que o seu percurso, de capelão universitário a responsável máximo pela cultura no Vaticano, o coloca numa posição privilegiada para reflectir sobre o desfasamento entre o ritmo da mudança tecnológica e social e a solidez dos valores que sustentam as sociedades.
De resto, o primeiro dia do evento, hoje, abre com uma reflexão sobre a leitura como “acto de resistência” e prossegue com sessões dedicadas às tendências do sector editorial, ao panorama europeu da edição, ao papel das bibliotecas e à relação entre leitura e saúde, culminando numa intervenção do próprio Marcelo Rebelo de Sousa sobre a defesa da leitura em Portugal.
Já o segundo dia, além da intervenção de Tolentino Mendonça, inclui ainda sessões sobre democracia e liberdade de expressão, criatividade, transformação digital e uma masterclass final dedicada ao marketing e à visibilidade do livro na era da inteligência artificial, com intervenientes de Espanha, Itália, Reino Unido e México.
Aberto ao público, o ‘Book 2.0’ quer assumir-se como uma plataforma de diálogo entre diferentes gerações e sensibilidades, num momento em que o sector do livro procura reafirmar o seu papel central face à concorrência de outros formatos e à velocidade imposta pelas novas tecnologias.