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Regresso às aulas

Há momentos do ano que parecem ter o poder de nos fazer voltar atrás no tempo. O regresso às aulas é um deles.

Basta entrar numa papelaria para recordar mochilas novas, cadernos ainda imaculados, lápis por estrear e aquela ansiedade boa de começar mais um ano. No meu tempo, comprar o material escolar fazia parte do ritual. Escolher o estojo, forrar os livros, escrever o nome na primeira página… E havia uma coisa que praticamente já desapareceu: o cheiro dos livros novos.

Hoje, muita coisa mudou. E ainda bem. A escola de hoje tem ferramentas que nós nunca tivemos. Há informação à distância de um clique, quadros interativos, computadores e tablets. São recursos importantes e seria absurdo querer educar os jovens de hoje como se estivéssemos no passado. Mas talvez o progresso também nos obrigue a fazer algumas perguntas. Porque aprender não é apenas ter acesso à informação. É também prestar atenção. É conversar. É esperar. É descobrir. É estar presente.

Nós esperávamos pelo intervalo para falar com os amigos. Hoje basta pegar no telemóvel. Antes tínhamos de memorizar números de telefone; hoje, raramente sabemos sequer o número dos nossos melhores amigos. Nós chegávamos a casa e contávamos o que tinha acontecido na escola; hoje, por vezes, já assistimos à vida uns dos outros através de fotografias e vídeos antes de nos encontrarmos.

E há algo que nenhuma tecnologia conseguirá substituir: o professor que acredita num aluno quando ele próprio deixou de acreditar, a palavra certa num dia difícil ou aquele professor de quem, décadas depois, ainda nos lembramos pelo nome.

É por isso que considero importante a decisão de limitar o uso dos telemóveis nas escolas. Não porque os telemóveis sejam o inimigo. Não são. Mas porque há lugares onde precisamos de voltar a estar verdadeiramente uns com os outros. A escola é um desses lugares.

Talvez os nossos filhos não tenham as mesmas memórias que nós. Talvez daqui a vinte anos não se lembrem do primeiro caderno, porque escreveram num tablet. E está tudo bem. Cada geração constrói as suas próprias memórias.

Mas espero que continuem a existir recreios onde se fazem amigos, salas onde se fazem perguntas, professores que ficam na memória e momentos que não são fotografados nem publicados em lado nenhum.

Porque, no fim, talvez seja isso que realmente levamos da escola: não os ecrãs, não os manuais, nem sequer as notas. Levamos as pessoas. As histórias. As gargalhadas. E aquele cheiro dos livros novos que, por mais que o mundo avance, continua a saber a setembro.

Um bom ano letivo a todos os que fazem da escola um lugar de aprendizagem, crescimento e, sobretudo, de vida.