IA ganha terreno nas empresas chinesas e deixa trabalhadores para trás
Após nove anos e meio a traduzir e rever conteúdos para uma tecnológica chinesa em Pequim, Martin Ros foi despedido este mês, vítima da crescente adoção da inteligência artificial no mercado de trabalho da China.
"Parte muito grande do motivo é obviamente a IA, porque tecnicamente conseguem substituir uma boa parte do meu trabalho", disse à agência Lusa o suíço, que trabalhava na área de jogos da Kunlun Tech, na capital chinesa, fazendo localização, tradução e revisão de conteúdos em alemão.
Ros estima que cerca de 15 pessoas tenham sido dispensadas nesta ronda. Meses antes, vários trabalhadores da área de desenho e pintura digital deixaram também a empresa.
A Kunlun não invocou formalmente a Inteligência Artifical (IA) como motivo para o despedimento, mas algumas das tarefas desempenhadas por Ros podem agora ser automatizadas.
"Para uma empresa, é uma grande tentação substituir um humano por um sistema de IA", observou Ros, ressalvando, porém, que desaparece também a verificação humana: "Ficamos apenas com tradução automática e ninguém sabe se está correta. A IA alucina".
A empresa continua interessada nos seus serviços, afirmou, mas não em mantê-lo nas mesmas condições laborais. Para Ros, o problema imediato é permanecer na China, onde a sua situação de residência depende do emprego.
"Neste momento, essa é definitivamente a minha maior preocupação", descreveu.
O suíço sente a mesma transformação no mercado de tradução fora da empresa. Trabalhos que fazia anteriormente "desapareceram completamente", enquanto as remunerações oferecidas aos profissionais estão a diminuir.
"Agora competimos com sistemas de IA", resumiu.
Um estudo da Universidade ShanghaiTech, divulgado em julho, concluiu que 33,2% de 40,01 milhões de anúncios de emprego publicados na China entre janeiro e abril envolviam tarefas altamente expostas à IA, sobretudo em áreas como contabilidade, operações administrativas, produção de conteúdos visuais e vendas por telefone.
A pressão é maior nos postos de entrada e intermédios, com entre um e três anos de experiência e salários mensais entre 5.000 e 8.000 yuan (640 a 1.025 euros), segundo o estudo.
Nas indústrias criativas, projetos que anteriormente exigiam dez pessoas podem agora ser realizados por duas ou três, explicou um ilustrador chinês residente em Pequim.
Na produção de séries de episódios curtos, setor que emprega diretamente cerca de 690.000 pessoas na China, 95% das cerca de 128.000 produções lançadas no primeiro trimestre deste ano foram geradas por IA, segundo a China Netcasting Services Association.
A crescente substituição de trabalhadores chegou, entretanto, aos tribunais.
Em abril, o Tribunal Popular Intermédio de Hangzhou confirmou como ilegal o despedimento de Zhou, um trabalhador de uma tecnológica cujas tarefas de controlo de qualidade de respostas produzidas por grandes modelos de linguagem passaram a ser executadas pela própria IA.
A empresa tentou transferi-lo para outra função, reduzindo o salário mensal de 25.000 para 15.000 yuan (3.200 para 1.900 euros), e despediu-o depois de este recusar.
O tribunal considerou que a adoção de IA não constitui automaticamente uma "alteração significativa das circunstâncias objetivas" que permita rescindir um contrato de trabalho.
"O progresso tecnológico pode ser irreversível, mas não pode existir fora de um quadro jurídico", afirmou Wang Tianyu, investigador da Academia Chinesa de Ciências Sociais, citado pela agência noticiosa oficial Xinhua.
Ros conhece o precedente, mas apontou uma dificuldade: provar que a IA está efetivamente por detrás de um despedimento.
"Eles não precisam de dizer que é por causa da IA. Encontram outra razão", afirmou. "Se não dizem, como é que se prova exatamente?".
Alguns antigos colegas mantêm por enquanto os empregos, trabalhando remotamente e com salários mais baixos, segundo Ros. Mas o suíço receia que seja apenas uma etapa intermédia.
"Quem sabe o que acontecerá daqui a um ano", questionou. "Talvez descubram como automatizar aquilo que fazem e digam: agora só precisamos de vocês duas horas por semana", apontou.