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Madeira

A explosão que matou quatro pessoas e marcou o fim do comboio do Monte

Canal Memória de hoje transporta-nos até à crónica “de um grande desastre”, relatado pelo DIÁRIO há 107 anos

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Há 107 anos, o DIÁRIO noticiava um dos mais trágicos desastres com transportes na Região. A 10 de Setembro de 1919, um grave acidente com o comboio da Companhia do Caminho de Ferro do Monte marcou tragicamente a história da freguesia do Monte, no Funchal.  Durante a subida, a caldeira de uma das locomotivas explodiu, provocando quatro mortos e vários feridos entre os passageiros e os trabalhadores que seguiam a bordo.

Mas, na tarde daquele 10 de Setembro de 1919, nada fazia prever que o desastre pudesse assumir tamanha dimensão. “Ontem, pouco depois das 6 horas da tarde, ouviu-se em diferentes pontos da cidade um estampido, que a princípio muitas pessoas supuseram ser um rumor subterrâneo, começando pouco depois a circular a notícia de que se dera a explosão dum comboio, ficando mortas e feridas numerosas pessoas”. O relato, publicado numa coluna da página 2 da edição de 11 de Setembro de 1919 do DIÁRIO de Notícias, remetia para “um grande desastre”.

Em causa estava a explosão da caldeira da locomotiva L4 do Elevador do Monte, na estação do Pombal, no final da Rua do Comboio, no Funchal, que causou “quatro mortos e muitos feridos”, naquele que viria a ser, à época, um dos mais trágicos sinistros envolvendo transportes na Madeira.

A triste notícia, que em breve seria confirmada, fez afluir à estação do Pombal centenas de pessoas, umas levadas pela curiosidade e outras pela ânsia de colher informações acerca de familiares, amigos e conhecidos que se encontravam a veranear no Monte e que para ali haviam seguido no comboio das 6 horas, escreve o matutino.

A equipa de reportagem do DIÁRIO revela que, ao subir a Rua de João Tavira, encontrou o primeiro ferido, “o sr. Henrique Herculano Nunes, societário da ‘Botica dos Dois Amigos’, que vinha para o Hospital Santa Isabel com a cara muito ensanguentada e uma toalha de banho atada na cabeça, acompanhado por dois rapazes seus amigos”.

Entre a dificuldade para obter relatos de testemunhas em cima do acontecimento, a reportagem do DIÁRIO descrevia o cenário encontrado, procurando também recolher elementos relevantes para a interpretação e o apuramento das razões do trágico acidente. O primeiro cadáver a ser resgatado foi o de “um dos homens da máquina” e, no meio daquela “massa, quase informe, coberta de carvão e sangue”, “a caldeira tinha desaparecido, vendo-se espalhadas nas proximidades chapas de ferro e outros destroços”.

Nesta crónica “de um grande desastre” a fotografia ilustrativa era mais lenta do que a letra impressa, mas compensava os leitores fornecendo-lhes um relato detalhado de todos os elementos relevantes, recolhidos visualmente no palco do acidente: “o maquinismo estava também destruído e no vagão não se via um único vidro inteiro. Cerca de 50 metros à rectaguarda do comboio via-se, à esquerda da linha, à beira de uma parede, a tubagem interior da caldeira. O invólucro desta fora atirado para o lado direito da linha, indo cair junto a uma casa térrea, a uma distância de cerca de 200 metros”.

O aparatoso acidente do comboio do Monte provocou também danos nas casas vizinhas, conforme o DIÁRIO deu conta. “A explosão, que foi formidável, causou grande abalo nas casas numa área de alguns quilómetros, caindo em algumas, pedaços de estuque dos tectos e partindo-se vidraças”.

Entretanto, as vítimas mortais iam sendo resgatadas e identificadas. “Os mortos foram o fogueiro Urbano d’Abreu, que foi atirado a considerável distância, sendo levantado já morto; o maquinista João Vieira Gaspar, que foi tirado ainda com vida de entre os destroços da máquina, ambos moradores ao sítio do Livramento; uma mulher de nome Virgínia Preceito, que na ocasião em que foi socorrida tinha o fato incendido e apresentava um horroroso ferimento na cara, chegando já morta à Cruz Vermelha; e Gastão Gomes da Silva, rapaz de cerca de 18 anos de idade, bastante conhecido e estimado nesta cidade, filho do sr. Manuel Gomes da Silva, co-proprietário do ‘Golden Gate’. O desditoso rapaz foi também atirado para fora do comboio, sendo transportado ao hospital, onde faleceu pouco depois, não obstante não apresentar ferimento algum”.

Entre os feridos encontravam-se o pai e o irmão mais novo de Gastão. O DIÁRIO acrescentava que, das 54 pessoas que o comboio transportava, poucas ficaram ilesas, principalmente devido aos estilhaços de vidros e às quedas.

A tragédia deixou a Madeira de luto e levou à suspensão de várias actividades em respeito pelas vítimas. Entre elas estavam os festejos comemorativos da Paz e da vitória dos Aliados, anunciados para o domingo seguinte, 14 de Setembro, no Monte. Também o ‘Golden Gate’, cujo co-proprietário perdera um filho no acidente, decidiu encerrar as suas portas.

No Teatro Dr. Manoel de Arriaga – hoje Teatro Municipal Baltazar Dias –, o espectáculo que estava previsto subir a palco foi adiado para o dia seguinte “em sinal de profundo sentimento pelo desastre do elevador do Monte”.

A consternação era transversal e chegou também às páginas do jornal que acompanhou o desastre desde as primeiras horas. No final da crónica, o DIÁRIO associava-se ao luto das famílias: “O DIÁRIO de Notícias associa-se à dor e ao luto que o horrível sinistro veio causar, apresentando ao mesmo tempo sentidas condolências às desoladas famílias das vítimas”.

A violência do acidente obrigou à suspensão total do serviço ferroviário até Fevereiro de 1920 e viria a antecipar o declínio daquela que constituíra, desde finais do século XIX, uma importante ligação entre o Funchal e o Monte. Em 1932, um novo descarrilamento agravaria as dificuldades da companhia, posteriormente atingida também pela crise económica associada à Segunda Guerra Mundial.

Perante os sucessivos acidentes e as crescentes dificuldades financeiras, a Companhia do Caminho de Ferro do Monte acabaria por falir. A linha faria a sua derradeira e simbólica viagem a 17 de Maio de 1943, encerrando um capítulo marcante da história dos transportes da Madeira.