Só quatro indemnizações estão fechadas após tragédia do Elevador da Glória
A investigação ainda não apurou responsabilidades pelo acidente que matou 16 pessoas e feriu outras 24
Relatório final só deverá ser conhecido em 2027 e os feridos continuam sem avaliação definitiva. Ascensor não voltará a funcionar antes de 2029.
Um ano depois, continuam por responder algumas das perguntas mais importantes sobre a tragédia do elevador da Glória. Quem falhou, por que razão falhou e quem será responsabilizado pelo acidente que provocou 16 mortos e 24 feridos continuam sem resposta definitiva. Também no plano das indemnizações o processo está longe de encerrado: até agora, apenas foram alcançados acordos com as famílias de quatro vítimas mortais.
O descarrilamento ocorreu pelas 18 horas de 3 de Setembro de 2025 e transformou um dos mais conhecidos símbolos de Lisboa no cenário de uma das maiores tragédias recentes da capital. Entre as vítimas estavam cidadãos de 15 nacionalidades, sobretudo turistas estrangeiros. Morreram também cinco portugueses, entre os quais André Marques, o guarda-freio que conduzia uma das cabinas, e quatro trabalhadores da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
Um ano depois, a investigação criminal do Ministério Público continua em segredo de justiça e a Procuradoria-Geral da República não esclarece sequer se já existem arguidos constituídos.
Também a investigação técnica vai demorar mais do que inicialmente previsto. O Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF) já admitiu que o relatório final não ficará concluído em Setembro e aponta agora para a sua divulgação até ao final do primeiro trimestre de 2027.
Cabo que cedeu não estava certificado
Apesar de faltarem conclusões definitivas, há já elementos relevantes conhecidos.
O relatório preliminar divulgado em Outubro revelou que o cabo que fazia a ligação entre as duas cabinas e que acabou por ceder não respeitava as especificações exigidas nem estava certificado para o transporte de pessoas.
É um dos dados centrais de uma investigação que envolve perícias técnicas complexas e que deverá determinar se existiram falhas na manutenção, fiscalização ou operação do equipamento.
Na sequência do acidente, a administração da Carris, então liderada por Pedro de Brito Bogas, demitiu-se. O director de Manutenção do Modo Eléctrico foi posteriormente exonerado e a empresa municipal pôs também fim aos contratos que mantinha com a MNTC – Serviços Técnicos de Engenharia, responsável por trabalhos de manutenção nos equipamentos históricos.
Ainda assim, não foi até agora instaurado qualquer processo disciplinar nem avançou qualquer acção judicial da Carris contra outras entidades, precisamente porque continuam por conhecer as conclusões das investigações.
Feridos ainda sem situação clínica fechada
Também para quem sobreviveu ao acidente o processo está longe do fim.
Dos 24 feridos, nove sofreram ferimentos graves e, segundo a Fidelidade, seguradora da Carris, nenhum tem ainda a situação clínica definitivamente consolidada. Sem essa estabilização, sustenta a companhia, não é possível determinar de forma definitiva eventuais sequelas e calcular o valor das indemnizações.
A seguradora refere ter já suportado ou assumido o reembolso de cerca de 2,3 milhões de euros relacionados com o acidente. Neste valor entram não apenas indemnizações, mas também funerais, repatriamentos, consultas, tratamentos, internamentos, cirurgias, reabilitação, transportes e perdas salariais.
No caso das 16 vítimas mortais, apenas quatro processos terminaram com acordo indemnizatório com as famílias. Sete continuam em negociação e um seguiu para tribunal, depois de não ter sido possível chegar a entendimento.
Há ainda uma vítima cujo processo está a ser tratado exclusivamente no âmbito de acidente de trabalho, com pagamento de pensões provisórias, enquanto em três outros casos a seguradora afirma aguardar documentação e a resolução de questões legais relacionadas com os países de origem das vítimas.
A apólice accionada pela Carris tem uma cobertura máxima de 50 milhões de euros.
Famílias queixaram-se de silêncio
O acompanhamento das vítimas e dos seus familiares também não passou sem contestação.
Ao longo do último ano surgiram relatos de sobreviventes e familiares que garantem ter recebido pouco ou nenhum contacto das autoridades portuguesas, versão contrariada pela Câmara de Lisboa, que assegura ter procurado todos os envolvidos.
Uma família alemã que sobreviveu ao acidente decidiu mesmo avançar para tribunal, afirmando que pretende sobretudo perceber quem falhou e impedir que uma tragédia semelhante volte a acontecer.
A Carris garante, por seu lado, que mantém acompanhamento social, humano e logístico das vítimas e familiares, remetendo para a Fidelidade a gestão dos processos indemnizatórios.
Glória só deverá voltar em 2029
A tragédia mudou ainda o futuro dos históricos elevadores e ascensores de Lisboa.
Depois do acidente, foram suspensos, por precaução, os ascensores da Bica e do Lavra e o Elevador de Santa Justa. Continuam sem funcionar e ainda não existe uma data para a retoma. O Funicular da Graça foi o primeiro a regressar ao serviço, em Abril deste ano.
Quanto à Glória, não haverá simplesmente uma reparação do equipamento acidentado.
A Câmara de Lisboa e a Carris anunciaram esta semana a intenção de criar um novo sistema, mantendo a identidade histórica do ascensor mas incorporando novas soluções de segurança. O concurso público internacional para a concepção deverá ser lançado até ao final de Março de 2027.
Se o calendário for cumprido, o novo ascensor da Glória só deverá entrar em funcionamento em 2029, quatro anos depois do acidente.
Na Calçada da Glória deverá também ser criado um memorial às 16 pessoas que perderam a vida.
Um ano depois da tragédia, porém, a homenagem chegará antes das conclusões. As famílias continuam sem conhecer todas as causas, a Justiça ainda não apontou responsabilidades e a maioria dos processos de indemnização permanece por encerrar.