A História do Fim da Autonomia, uma Distopia
1. A Autonomia não acabou com soldados no porto, tanques diante da Assembleia ou um ministro de Lisboa trazendo um decreto no bolso. Acabou numa terça-feira, às dez e vinte e três, quando um funcionário carregou numa tecla e o sistema informou que a Madeira deixara de reunir os requisitos para continuar a existir como Região Autónoma, como se um povo precisasse de uma certidão das finanças para ser aquilo que era. Ninguém protestou. Uns tentavam marcar uma consulta, outros procuravam casa, outros faziam contas ao preço de sair da ilha. A extinção foi publicada no Diário da República. Ninguém leu. À mesma hora, o Governo inaugurava um miradouro capaz de medir a emoção dos turistas diante do pôr do sol, não o desespero de quem vivia cá.
Durante décadas ensinaram-nos que Autonomia era receber dinheiro de Lisboa e de Bruxelas, indignarmo-nos porque chegava tarde e festejar quando aparecia. Chamavam a isto luta autonómica, com a solenidade de quem atravessara a serra da Encumeada a pé e não com a comodidade de quem viajara em executiva. Ninguém perguntava como podia uma Autonomia passar cinquenta anos de mão estendida e julgar-se dona do próprio braço.
O Presidente do Governo, no décimo segundo mandato ou talvez no décimo terceiro, fora substituído por um holograma sem que os eleitores dessem pela diferença. Conservava o sorriso, os gestos, a capacidade de visitar tudo o que mexia e as frases que a versão humana repetira até deixarem de significar fosse o que fosse. “Lisboa tem de compreender”, anunciava às segundas. “Não aceitamos imposições”, garantia às quartas, pouco antes de aceitar mais uma. “Aqui quem manda somos nós”, declarava às sextas, diante de um relatório escrito em Lisboa, pago por Bruxelas e resumido por um algoritmo do Luxemburgo.
A Assembleia permanecia aberta porque fechá-la seria confessar que já não servia para nada. Os deputados congratulavam-se com os vivos importantes e lamentavam os mortos úteis. As leis eram preparadas por um programa que perguntava se Lisboa consentia, Bruxelas permitia e o partido autorizava. Reunidas as três condições, os representantes do povo exerciam o poder legislativo próprio escolhendo entre uma vírgula e um ponto e vírgula.
Nas paredes, os fundadores observavam os sucessores com o embaraço de quem deixou uma casa aos filhos e regressou para a encontrar transformada em AL, sem árvores e com um nome inglês. Debaixo dos retratos discutiam-se novas maneiras de receber dinheiro alheio. Se alguém falava em responsabilidade, olhavam-no como se um bêbedo tivesse entrado na missa a perguntar se Deus ia aparecer.
Também mudaram a bandeira. Uma empresa de Lisboa concluiu que o azul era agressivo, o amarelo pouco sofisticado e a cruz inconveniente. Substituíram-nos por cores experimentais e por um QR Code para o portal do turismo. A bandeira passou a representar um destino com pequeno-almoço, taxas turísticas e um voucher para o teleférico do Curral.
A palavra “madeirense” desapareceu depois. Era antiga e pouco amiga dos mercados. Passámos a ser “residentes funcionais”, entre eles os jovens obrigados a partir, porque o salário já não pagava uma casa, nem a casa cabia no salário. O Governo despedia-se deles no aeroporto e oferecia-lhes a miniatura de uma casa de Santana, a única propriedade na ilha que poderiam permitir-se. A mãe chorava, o secretário sorria e o fotógrafo pedia que ficassem mais juntos precisamente quando a família se separava.
As casas verdadeiras pertenciam a fundos de países onde ninguém sabia pronunciar “Câmara de Lobos”. As famílias subiam pela encosta à procura de rendas menos impossíveis, enquanto as cidades cresciam porque a terra, diziam, era escassa. Uma escassez curiosa: havia terreno para hotéis, condomínios e elefantes brancos. Faltava para quem precisava de viver. Os prédios taparam a paisagem até o mar se transformar num reflexo nas janelas dos apartamentos dos outros.
A agricultura e a pesca desapareceram porque davam trabalho. Agricultores e pescadores tornaram-se figurantes, pagos para recordar actividades que o Governo ajudara a extinguir. Era mais barato conservar a memória do que conservar as pessoas.
Os portos eram modernos, o aeroporto inteligente e continuávamos presos ao preço indecifrável de uma passagem que nos levasse para lá do paraíso. O subsídio de mobilidade fora simplificado até exigir dezassete documentos e fé na vida depois da morte. A continuidade territorial estava assegurada desde que pagássemos antecipadamente pela descontinuidade.
O ferry envelhecia como ideia. Antes de cada eleição reaparecia numa imagem com um navio branco e setas azuis. Depois regressava à gaveta. Estudaram rotas, portos, combustíveis, passageiros e gaivotas. Cada estudo recomendava outro estudo. Só nunca se estudou a vontade de avançar, porque essa não existia.
A saúde alcançou a perfeição estatística quando o Governo deixou de chamar espera à espera. O doente estava “em trajecto clínico diferido” e quem permanecia num corredor participava numa “optimização espacial”. Se morresse, saía da lista e a média melhorava. Um indicador não geme nem morre.
Nas escolas ensinava-se a Autonomia com realidade aumentada nas Salas do Futuro. Os alunos viam multidões a reivindicar dignidade e, depois, respondiam a um questionário cuja resposta certa era “mais financiamento”. A responsabilidade fora eliminada do programa. Podia levar as crianças a imaginar que governar implicava responder.
O Dia da Região tornava-se mais grandioso à medida que a Região ficava menos autónoma. Havia medalhas e a palavra AUTONOMIA projectada nas montanhas por drones, que também serviam para apagar incêndios descontrolados. Quanto menor o poder, maiores as letras. Durante alguns minutos, a ilha parecia independente da realidade.
Foi assim que chegámos àquela terça-feira.
O diploma da extinção tinha nove páginas, duas menos do que o regulamento de uma esplanada. Garantia de que nada mudaria, o que tranquilizou toda a gente, porque nada mudar era a principal obra do Governo.
O holograma declarou, numa visita a um cabeleireiro, que a Madeira jamais se vergaria e, depois, aceitou a decisão em nome do sentido de Estado. Garantiu que o essencial permanecia intacto. Talvez nos carros, nos assessores ou no direito de culpar Lisboa pelo que o Funchal fazia e o Funchal pelo que Lisboa mandava.
Na rua nada aconteceu. Um homem perguntou se o fim da Autonomia faria o preço do café subir. “Por alguma razão há-de subir”, respondeu o empregado.
Apenas uma velha apareceu na Assembleia com a bandeira antiga debaixo do braço, ainda azul, ainda amarela, ainda com a cruz. Entrou no salão onde os deputados preparavam um voto de protesto contra a própria extinção, abriu a bandeira no chão e perguntou: “O que fizeram vocês?”
Uns olharam para os sapatos, outros para o relógio. Um consultou o Regimento. Outro propôs uma comissão eventual. O Governo pediu responsabilidade e a oposição exigiu eleições para uma Assembleia que desapareceria no mês seguinte. Todos saíram satisfeitos porque tinham falado, e falar sempre fora a forma regional mais segura de nada fazer.
A velha riu-se, o riso de quem finalmente compreende a burla. A Autonomia fora conquistada para que os madeirenses governassem a Madeira. Governar era escolher, fazer e responder. Três verbos que ninguém reconheceu.
Os deputados escutaram-na com a tolerância reservada às pessoas sem utilidade eleitoral. A bandeira que tinha foi guardada numa caixa com a inscrição “Património Autonómico Extinto”. Anos depois, apareceu no Museu da Identidade Insular, instalado na antiga Assembleia e explorado por uma cadeia internacional. À saída, os visitantes recebiam uma reprodução digital e a frase: “A Autonomia é irreversível.”
Sorriam, tiravam fotografias e compravam uma pequena Estátua da Autonomia de plástico, fabricada na China. Quem percebia a ironia era acusado de pessimismo e de falta de amor à Madeira, porque amar a Madeira passara a significar não reparar no que lhe tinham feito.
Lisboa nunca precisou de nos roubar a Autonomia. Entregámo-la, competência a competência, silêncio a silêncio, subsídio a subsídio, enquanto os governantes juravam defendê-la com a veemência de quem protege uma coisa depois de a vender. Confundimos poder com dinheiro, identidade com propaganda, progresso com cimento e a Madeira com o partido instalado dentro dela.
Esta foi a verdadeira história do fim da Autonomia. Não nos arrancaram coisa alguma numa terça-feira. Fomos entregando tudo durante décadas e, enquanto entregávamos, batíamos palmas. A Autonomia não acabou quando no-la tiraram; acabou quando deixámos de merecê-la.