DNOTICIAS.PT
Desporto

Videoárbitro completa 10.ª época com caminho por fazer

Foto Mikolaj Barbanell / Shutterstock.com
Foto Mikolaj Barbanell / Shutterstock.com

O videoárbitro (VAR) foi das mudanças mais marcantes e benéficas para o futebol, mas tem caminho por fazer na 10.ª época consecutiva na I Liga, cuja edição 2026/27 começa na sexta-feira, avalia o ex-árbitro Jorge Faustino.

"Acredito que os adeptos e os clubes esperam mais do VAR e da possibilidade de intervir em mais situações, mas também há um caminho por fazer no sentido de perceber até que ponto é que estamos preparados para cada vez mais intervenções em situações não tão factuais, mas de interpretação", assumiu à agência Lusa o antigo 'juiz' e atual comentador televisivo, de 47 anos e com jogos dirigidos na II Liga.

Portugal foi um dos pioneiros no lançamento do VAR, um sistema tecnológico que fornece imagens vídeo para auxiliar à distância os árbitros de campo, aprovado em 2016 pelo International Board (IFAB), entidade reguladora das regras do futebol, sendo utilizado na I Liga desde 2017/18.

"Hoje já se percebe que o árbitro erra porque não está tão bem colocado e só teve uma vez para ver. Os adeptos não aceitam é que o VAR tenha uma opinião diferente da sua quando há 10 ângulos. Os lances de interpretação vão ser uma discussão em torno do VAR, mas há mais caminho a fazer na educação e na capacidade de as pessoas perceberem certas situações do jogo do que na definição da intervenção do VAR", analisou Jorge Faustino.

Perante um erro claro e óbvio ou incidente grave não detetado, o protocolo já previa assistência em golos, penáltis, cartões vermelhos diretos e erros de identidade na advertência ou expulsão, situações às quais se juntam para 2026/27 a revisão dos pontapés de canto atribuídos incorretamente.

"Acho que existirá sempre ruído. Depois, depende de quem é que a época está a correr melhor ou pior. Muitas vezes, a época até está a correr bem a certos clubes, mas estes fazem logo ataques preventivos para poderem ter já alguma coisa para dizer se começar a correr mal. Esse ruído tem pouco a ver com a arbitragem, que é sempre o alvo mais fácil para atacar, e mais com a estratégia de comunicação e a gestão de crise dos clubes", admitiu.

Os 'juízes' receberam várias orientações do novo diretor técnico nacional de arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), João Ferreira, incluindo, entre outras, "tentar decidir bem e mais rápido no VAR" e "aumentar o tempo útil de jogo", que ronda os 55% no escalão principal desde 2021/22, segundo a Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP).

"Até às alterações desta época, estava do lado do árbitro muito do ónus de tentar acelerar os recomeços, porque os tempos não estavam estipulados. A partir do momento em que o IFAB define cinco segundos para a execução de um pontapé de baliza ou um lançamento lateral e 10 na saída de um jogador numa substituição, passam a ser situações factuais e fica mais fácil para os árbitros fazerem cumprir a lei", observou Jorge Faustino.

Outra via para diminuir as perdas de tempo é a saída de um futebolista de campo por um minuto quando o guarda-redes da respetiva equipa forçar uma pausa para instruções táticas ou quebrar o ritmo do encontro, medida que, com a autorização do IFAB, já será experimentada em alguns países.

Convicto de que as novidades nas leis do jogo vão beneficiar "a velocidade e a dinâmica da partida e a proteção dos futebolistas e da tomada de decisão dos árbitros", Jorge Faustino pede "critério uniforme" e espera uma "época mais bem-sucedida do que a anterior" para o setor, que ainda não tem a tecnologia semiautomática de fora de jogo ao dispor em Portugal.

"Seria uma medida excelente, mas tenho algumas dúvidas sobre como acontecerá. Além dos custos, a implementação da tecnologia implica questões logísticas, nomeadamente na colocação das câmaras com certos ângulos, e há alguns estádios que têm desafios grandes nisso", concluiu.

Futebol e arbitragem partem fragilizados

O futebol e a arbitragem nacionais partem fragilizados para a época 2026/27, após polémicas que envolveram o setor antes do início da I Liga, na sexta-feira, admite o ex-árbitro.

"Há muito tempo que não víamos o nosso setor ensombrado por dúvidas relacionadas com nomeações e comportamentos mais ou menos éticos de elementos ligados a estruturas de arbitragem. Eu sou da geração do [processo judicial] Apito Dourado e acredito que contribuí, tal como outros colegas, para a transformação da forma como o adepto olhava para o setor e o futebol português, mas o que se está a passar traz algumas sombras e faz-nos recuar ao passado", reconheceu à agência Lusa o antigo 'juiz' e atual comentador televisivo, de 47 anos e com jogos dirigidos na II Liga.

A arbitragem nacional está a ser investigada pelo Ministério Público (MP), que instaurou um inquérito sobre alegadas interferências no processo de nomeações e eventual divulgação de informação confidencial a terceiros.

Em junho, Duarte Gomes demitiu-se do cargo de diretor técnico nacional de arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), no qual estava há um ano, tendo o organismo remetido ao MP os factos relatados pelo ex-árbitro internacional, que seria substituído por João Ferreira, antigo vice-presidente do Conselho de Arbitragem (CA) federativo.

"Muitas vezes, há coisas que não podem não ser provadas em tribunal, mas em que fica claro que pode não ter havido comportamentos éticos. A minha grande preocupação é que não haja qualquer dúvida de que todos os elementos das estruturas da arbitragem têm comportamentos éticos. Isso tem de ser esclarecido o mais rápido possível", apelou Jorge Faustino.

Na semana passada, circularam na imprensa e nas redes sociais áudios do presidente da FPF, em que Pedro Proença critica a qualidade dos árbitros portugueses, recorda os processos judiciais do Benfica e fala de forma pouco simpática sobre José Fontelas Gomes, vice-líder federativo.

Os excertos remontam a 2024, quando Pedro Proença comandava a Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) e preparava a candidatura à presidência da FPF, cujas eleições venceria em fevereiro de 2025.

"Temos um plantel de árbitros melhor do que há cinco anos e muitos deles são os mesmos. A experiência acumulada no futebol profissional faz com que sejam melhores e estejam mais bem preparados. Agora, é natural haver uns com melhores condições do que outros", avaliou Jorge Faustino.

No fim de semana, os árbitros do futebol profissional só concordaram em iniciar os trabalhos na primeira ação de reciclagem e avaliação do setor, um encontro de formação obrigatória promovido pelo CA, depois de reunirem com Pedro Proença, que reiterou a máxima confiança na arbitragem.

"Não gosto muito de puxar por este exemplo, mas não deixa de ser verdade: os resultados que o João Pinheiro e mais um ou dois têm tido lá fora devem querer dizer alguma coisa. Parece-me que temos árbitros com qualidade mais do que suficiente para apitar a sexta liga da Europa", notou.

Perto do fim da temporada passada, em que se multiplicaram críticas dos clubes aos 'juízes', as sociedades desportivas das I e II Ligas aprovaram em Assembleia Geral da LPFP várias mudanças nos regulamentos, incluindo o agravamento de ilícitos na lesão da honra e reputação, injúrias e protestos às equipas de arbitragem, bem como um aumento das multas.

"Quando a educação não funciona, temos de ir para a punição. É um caminho para tentar reduzir comportamentos que não podem existir. Se fossem mais penalizadoras, provavelmente teriam um impacto mais eficaz. Agora, não nos podemos esquecer que são os clubes a impor medidas que os impactam. Temos essa condicionante e estamos sempre sujeitos a que as coisas não possam evoluir tão rapidamente como gostaríamos", concluiu Jorge Faustino.