Bandas de originais na Madeira (I)

Em 1993, a RDP Madeira lança o Super Rock: bastava gravar três temas originais numa cassete e entregá la na estação. O prémio, mil CDs e duzentos “contos” em instrumentos era “enorme” face ao gesto. A imprensa com ironia, dizia que a Madeira chegava quase uma década atrasada ao modelo do Rock Rendez Vous. Ainda assim, o impacto foi imediato: pela primeira vez, havia um destino para enviar maquetas.

Tornou-se uma memória fundadora. Os Incógnita, Márcio, Luís, Carlos e Estanislau, ainda procuravam estilo; os Pilares de Banger, vencedores, ensaiavam obsessivamente na Juventude Antoniana, apesar dos “horizontes curtos” da ilha. Outros nomes, Almagesto, Cães Abstractos, sobreviveriam apenas nos recortes de jornal.

Curiosamente, quem primeiro saiu da ilha não foi o rock, mas o Metal. Em 1994, três bandas gravam fora: Incógnita, Requiem Laus e Drawned in Tears. Os Requiem Laus, formados em 1990, já tinham tocado nos Açores, onde o público reagia euforicamente. Os Drawned in Tears faziam doom à Paradise Lost. Os Requiem resumiam a condição insular: a Madeira servia para “agonizar e compor música”.

Seguiu-se um período de visibilidade real. Os Requiem Laus tornam-se conhecidos mais no continente do que na Madeira. Os Incógnita assinam com a Virtual Records, editam Madeirus Sarcasticus em 1995, esgotam a primeira edição e tocam ao lado dos Moonspell. Ambas as bandas abrem para os Xutos & Pontapés. Em novembro de 1995, o Cine Jardim recebe a tentativa do 1.º Festival de Metal da Madeira, algo impensável poucos anos antes.

A imprensa começa então a discutir o próprio meio. Em 1995 e 1996, Nélio de Sousa pergunta se existe uma “cena rock” na Madeira. Conclusão: há bandas e concertos, mas falta estrutura, continuidade e apoio. A rádio deixava de passar os temas logo após os concursos; muitos grupos desapareciam de seguida. A polémica estala: Et7ra acusa o Super Rock de fraude; José Carvalho, da Super FM, responde ponto por ponto. Em 2002, a crítica repete se.

Por baixo das discussões havia uma “economia” concreta: não existia um conceito capaz de gravar Metal com qualidade na Madeira, e gravar fora era mais barato. Durante uma década, o padrão repete-se: juntar dinheiro, pedir apoios, e apanhar o avião. O Rec’n’Roll, no Porto, torna-se o centro produtivo da cena pesada; Sidewalk gravam em Lisboa no Tcha-Tcha; Requiem Laus em Braga. Quase tudo sai em edição de autor.

Os Sidewalk condensam a história: segundo lugar no Super Rock de 1997, atrás dos Nude, single editado por conta própria, poucos apoios, revelação do ano para a Promúsica e, em 2003, primeira banda madeirense na Festa do Avante! A frase “na Madeira só se tocava em concursos” gera semanas de cartas de leitores.

Os Requiem Laus fornecem uma cronologia longa: demos, coletâneas, mudanças de estilo, hiatos, persistência. Em 2005 vencem um Concurso de Bandas Regionais e abrem para os Reamonn perante milhares de pessoas. Entre 2003 e 2005 surge uma viragem: Blue Sound Traffic (ex-Drawn in tears) lançam “Oxygen”; Outer Skin tornam se a primeira banda madeirense no Super Bock Super Rock, no dia dos Muse, Korn e Linkin Park.

Karnak Seti, Dogma 4.1,

Extreme Attitude, Stratus, Hologram, Pôle, Plastic Chain, Negative Rule e Extended, integram a Semana da Juventude. Em 2016, antigos protagonistas, reconhecem que a sua geração tinha desculpas — faltava tudo — e que agora já não. Mas o velho ditado dos “santos da casa” persiste, tal como a imprensa regional

mencionara décadas antes. Sozinha, registou mais de 30 anos de persistência, frustração e criação, com obras que são autêntico património imaterial. Obrigado.

Duarte Dusan Santos