Mais do que uma prima, quase uma tia, quase uma irmã mais velha
A nossa casa era metade do que é agora e, ela, a minha prima Ana, dormia connosco na única cama e no único quarto que havia. O meu pai passava a semana fora, no campo e onde havia obras. E a minha mãe pedia ajuda à sobrinha para tratar dos pequenos. Os pequenos éramos nós, o meu irmão e eu, e a única que não dormia na cama grande era eu. Ainda cabia no berço e sentia-me afastada daquela alegria de dividir espaço com outras pessoas, mas adorava a prima, 17 anos mais velha, bonita de uma maneira invulgar, cheirava a Anais Anais e o perfume ficava em todos as superfícies e objectos em que tocava. Também nós, os primos que mais pareciam filhos ou sobrinhos.
Quando nos levava às escolas onde dava aulas, as mulheres daqueles lugares escondidos na serra, chegavam depressa para ver ao perto o que lhes parecia serem os filhos da professora. E ela tinha de explicar que, eram os primos mais novos e tinham vindo pela companhia, para não fazer sozinha o caminho da paragem do autocarro até ali. A mais extraordinária dessas escolas foi a das Fontaínhas onde, durante o mês de Julho de 1980, passámos várias manhãs entre ameixeiras carregadas de fruta, ainda mais do que no Laranjal de onde vínhamos. Se fechar os olhos sou capaz de ver a escola, o armário cheio de material dos anos 50 e as salas frias apesar de ser Verão e estar calor.
Acredito que, se fizer um pequeno esforço, sei de memória todas as boleias que nos deram enquanto ela, o meu irmão e eu esperávamos pelo autocarro da Rodoeste. Os senhores simpáticos, em carros particulares, furgonetas e até camiões, paravam e deixavam entrar a professora e aqueles dois encostos, que arrumavam conforme podiam. A viagem nunca era boa, estava calor e o perfume da minha prima não conseguia abafar o cheiro a suor e pessoas, mas era reconfortante fazer parte daquele território de respeito e poder em que a minha prima circulava. Em casa, a minha prima agradecia com livros para pintar, com livros para ler. Às vezes com um vestido para mim e uma t-shirt para o meu irmão.
Tal como o perfume ficava em tudo o que tocava, o bom gosto vinha agarrado ao que nos oferecia e era bom, depois, fazer vista, na festa da paróquia ou a um lugar que fosse preciso ir. Se pensar bem, a minha prima estava em todas as nossas roupas já que ia às compras com a minha mãe e influenciava o que ficava na loja e o que valia a pena comprar. Muitos anos depois, já a nossa casa era quase do tamanho de agora, foi do armário dela no quarto pintado de cor de rosa que saíram as roupas para ir a casamentos, até os sapatos que, embora apertados, entraram-me nos pés e não me impediram de dançar o ‘Volare’ na festa.
Quando esbarrei na Matemática ensinou-me trigonometria e, mais tarde, os verbos franceses em tardes de domingo a ver passar carros do quintal. A minha tia Alice fazia daqueles lanches de pão queijo - e eu nunca percebi a razão do queijo ter um gosto diferente - e, depois, eu experimentava rímel, sombras para os olhos, batom e a minha prima tirava perfume com uma seringa para levar para casa. Só que eu nunca consegui deixar o meu perfume nas superfícies em que tocava, nem ter aquela beleza invulgar, que vinha de um certo mistério, de um sofrimento quase imperceptível. Eu era a Lina Marta que gostava de comer, ler e de me sentar com ela no quintal, enquanto a observava quase em segredo.
A adolescência arrastou-me para longe, vieram os anos da faculdade, os primeiros anos de trabalho e eu arrumei a minha prima Ana na gaveta da família e das pessoas que estariam para sempre na minha vida. Ela esteve quando me ia buscar ao hospital depois da quimioterapia, quando a minha mãe morreu e várias vezes nos desentendemos como fazem as pessoas que cuidam de nós e nos vêem crescer. A minha prima continuou no Laranjal, eu fui para o mundo, atrás de um caminho e de um sentido para a vida até ao dia em que o telefone tocou e ela me disse que tinha um carcinoma. O chão abriu-se nesse instante no lugar onde estava, no primeiro andar do centro comercial. Até me lembro da roupa que trazia vestida.
Eu não acreditei que fosse tão mau até ouvir o diagnóstico, também por telefone e ficar desesperada por não ser possível partilhar com outra pessoa. As minhas tias estavam a envelhecer, o meu tio Humberto não ia aguentar, nem a minha tia Alice. Foi a primeira vez na vida que entrei num consultório de psicologia e nem assim me consegui preparar devidamente para os quatro meses que se seguiram. Eu achava que percebia de tudo em cancro por ter tido um, mas o calvário que vi acontecer à frente dos meus olhos mostrou-me como a doença pode sugar tudo, levar tudo e deixar apenas dores lancinantes e um vulto da pessoa que conhecemos e amamos. Ainda hoje, tantos anos depois, sinto que não estive à altura.
Os meus assuntos ocupavam demasiado a minha cabeça para perceber que para a ajudar, naquele combate injusto e penoso, precisava de me desprender e ouvi-la, estar lá. Fiz o que sabia, o que me permitia a idade e a maturidade. No fim, quando a morte ganhou, fiquei destroçada e perdida sem saber que estava a entrar, da maneira dura, na vida adulta, a real, não aquilo que tinha sido até ali enquanto havia tias e primas para amparar os meus azares e escorregadelas. Os tempos que se seguiram foram duros, magoados, havia as tias, os pais destroçados e demasiado velhos para merecer semelhante dor.
E, sem a arte da minha prima de deixar o perfume em tudo o que tocava, tentei amar e amparar os velhos que, de repente, eram meus e só me queriam a mim para cuidar, como me pediu a tia Conceição, no dia do funeral. O caminho que fiz nos últimos 18 anos não teve a elegância dela, só as saudades que me chegam, às vezes, como agora enquanto escrevo e lembro a prima que foi quase uma tia, quase uma irmã mais velha.