Quem nos serve os dias (especialmente nas férias)
Aprendi cedo, nesta profissão, que a hospitalidade não se compra com estrelas. Compra-se com pessoas
Às sete e meia da manhã entro na sala de pequenos-almoços de um hotel e está tudo no sítio. O pão quente, a fruta cortada, as chávenas alinhadas, o sumo acabado de fazer, a música num volume que ninguém nota. Parece que aquilo nasceu assim, por geração espontânea, à espera de mim. Não nasceu. Alguém se levantou às cinco, apanhou o primeiro autocarro, vestiu um uniforme engomado e montou aquele cenário peça a peça enquanto eu dormia.
Há mais de quinze anos que trabalho perto destas pessoas e continuo a comover-me com a coreografia. O turno da noite que entrega ao turno da manhã sem que uma única palavra chegue ao corredor. A governanta que sabe, sem perguntar, que o quarto 214 tem uma criança. O empregado de mesa que, ao terceiro dia, já traz o café sem açúcar antes de o pedirmos. É um trabalho feito para não se ver, e é precisamente aí que vive a injustiça. Só damos pela existência destas pessoas quando alguma coisa corre mal e infelizmente há clientes que acham que no preço do quarto está incluída a possibilidade de serem mal educadas e arrogantes com quem trabalha. Mas não está nem isso tem preço.
Em Agosto, esta assimetria fica gritante. Para muitos, é o mês do descanso. Para eles, é o pico. Enquanto contamos os dias que faltam para regressar ao escritório com pena, há quem conte os dias que faltam para poder ir à praia em Outubro, quando a água já arrefeceu os dias são menores e as esplanadas fecham cedo. Servimo-nos do Verão de quem não tem Verão. E fazemo-lo, quase sempre, distraídos. O que me parece mais curioso é como subestimamos a influência que estas pessoas têm sobre o nosso estado de espírito. Em férias andamos mais frágeis do que admitimos (e muitas vezes mais exigentes), fora da rotina, fora de casa, com a família toda em cima. Nesse estado, um bom-dia genuíno pode salvar-nos a manhã. Uma rececionista que resolve o problema do check-in sem nos fazer sentir estúpidos pode salvar-nos o dia inteiro. E depois há o contrário, que também conheço bem, o olhar apressado, a resposta seca, e de repente lá vamos nós, mal-humorados, estragar o almoço a quem nos acompanha.
O que raramente nos ocorre é que o contrário também é verdadeiro. Que o nosso mau humor às oito da manhã também estraga o dia a alguém. Que a pessoa a quem estalámos os dedos ainda tem catorze horas de turno pela frente e vai levá-las com o peso da nossa atitude. Nós temos um dia mau. Eles têm um dia mau multiplicado por duzentos hóspedes. Não proponho grandes gestos, mas coisas pequenas, quase ridículas de tão simples. Ler o nome no crachá e usá-lo. Dizer bom dia a olhar para a cara, e não para o telemóvel. Não estalar os dedos para chamar alguém, nem com um “ó menina” atirado do outro lado da esplanada. Reclamar, quando é preciso, sem humilhar quem está à nossa frente apenas porque está à nossa frente.
Aprendi cedo, nesta profissão, que a hospitalidade não se compra com estrelas. Compra-se com pessoas. E eu sei bem disso porque trabalho na área mas também sou cliente. A distância entre uma estadia boa e uma estadia inesquecível cabe quase sempre num gesto humano. Podemos ter o hotel mais bonito da ilha e os lençóis mais confortáveis do Mundo, e nada disso salva uma estadia se quem lá trabalha estiver exausto, mal pago ou tratado como mobiliário. Quem faz um hotel, um restaurante ou um café não é o arquiteto. É quem lá está às sete da manhã ou às onze da noite.
Um dia de cada vez também é isto, reparar que o nosso dia é, em boa parte, feito por mãos alheias. Que há sempre alguém a segurar a estrutura por baixo, silenciosamente, para que a nossa manhã corra bem. Daqui a uns meses até me posso lembrar da qualidade do lençol mas seguramente que me vou lembrar de forma especial, de quem me disse bom dia com um sorriso na cara e tornou a minha estadia melhor.