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O que é o El Niño (e porque se fala tanto dele agora)?

O El Niño é a fase quente de um ciclo natural chamado ENSO (El Niño–Southern Oscillation), que ocorre no oceano Pacífico tropical. Basicamente: as águas superficiais do Pacífico equatorial aquecem acima do normal, isso altera os ventos e a convecção atmosférica, e essa alteração 'propaga-se' pelo planeta, mudando padrões de chuva, seca e temperatura muito para além do Pacífico.

El Niño tem 69% de hipótese de ser o mais forte já registado

O fenómeno climático El Niño tem 69% de hipóteses de ser o mais forte de que há registo, alertou a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA, na sigla em inglês).

O que está a acontecer neste episódio (2026-27)

Segundo o IPMA, à data de 11 de Agosto de 2026 a temperatura da superfície do oceano no Pacífico equatorial (região Niño 3.4) já estava cerca de 1,0°C acima do normal no trimestre Maio-Julho, um sinal de que o fenómeno se intensificou rapidamente.

A Luso Meteo (portal de meteorologistas amadores dedicado a estas temáticas) descreve este episódio como excepcional: as anomalias na região Niño 3.4 já ultrapassam +1°C e os dados mais recentes reforçam a previsão de que pode ser um episódio raro, com potencial para se tornar dos mais intensos já registados. Uma das explicações apontadas é o forte aquecimento das águas subsuperficiais do Pacífico, com uma grande massa de água anormalmente quente a deslocar-se para leste, favorecida pelos ventos e pela convecção.

Temperatura média da superfície do mar atinge novo recorde em julho

A temperatura da superfície do mar a nível global no passado mês de julho foi a mais elevada alguma vez registada, anunciou hoje o Serviço de Alterações Climáticas do Copernicus (C3S) da União Europeia.

O IPMA estima que há mais de 97% de probabilidade de o episódio persistir até ao início da primavera de 2027 e cerca de 95% de probabilidade de se tornar um El Niño "muito forte" até ao final de 2026. A própria NOAA confirma este cenário: o El Niño está a fortalecer-se, com probabilidade superior a 90% de se tornar um evento muito forte durante o outono e inverno do hemisfério norte de 2026-27.

Os impactos mais graves esperados a nível global

O IPMA resume assim os riscos: ondas de calor mais intensas, períodos prolongados de seca e episódios de precipitação extrema, com consequências significativas para populações, agricultura e recursos hídricos em várias partes do mundo. A Organização Meteorológica Mundial reforça que um El Niño muito forte aumenta o risco de fenómenos extremos, sobretudo nas regiões tropicais e equatoriais.

Chuvas e cortes de energia devido ao primeiro furacão a atingir Havai desde 1992

O furacão Lala atingiu a Ilha Grande do Havai com chuvas fortes e ventos intensos, com os meteorologistas a alertar para possíveis inundações perigosas em todo o estado insular do Pacífico dos Estados Unidos.

Alguns padrões regionais já esperados:

  • Ásia: tempo mais seco no Sudeste Asiático, enquanto o Pacífico Noroeste deve manter atividade tropical muito acima da média, com formação de vários sistemas.
  • Brasil: chuva acima da média no Sul, risco de temporais e tempo severo, e persistência de dias quentes e secos no Centro-Oeste, interior do Nordeste e partes do Norte.
  • EUA/global: análises internacionais apontam para maior probabilidade de secas, incêndios florestais, chuvas intensas e inundações, além de menos furacões no Atlântico mas mais risco no Pacífico, com risco de calor extremo e falta de chuva no oeste dos EUA e mais precipitação intensa no sul durante o inverno do hemisfério norte.

Governo brasileiro admite que seca pode superar recorde na Amazónia

O ministro do ambiente brasileiro admitiu que a Amazónia poderá enfrentar uma seca recorde devido ao El Niño, mas considerou prematuro prever um cenário semelhante a 2024, garantindo estar a trabalhar para evitar problemas de isolamento, abastecimento e incêndios.

E em Portugal (incluindo a Madeira?)

Aqui está o ponto mais importante e muitas vezes mal-entendido: o próprio IPMA é claro em dizer que os efeitos do El Niño em Portugal não são diretos nem estatisticamente significativos, embora o fenómeno possa influenciar indiretamente a variabilidade climática do país.

Sobre os arquipélagos especificamente, uma notícia recente resume bem esta cautela: o IPMA continuará a monitorizar a evolução do fenómeno para avaliar possíveis repercussões diretas em Portugal continental e nos arquipélagos dos Açores e da Madeira, onde os efeitos costumam sentir-se de forma mais indireta, mas ainda assim visível na instabilidade do estado do tempo.

Na prática, para Portugal (e por extensão a Madeira), isto traduz-se em:

  1. Não há uma relação causal direta e comprovada — ao contrário do que acontece em zonas tropicais/equatoriais, onde o El Niño 'dita' claramente o padrão de seca ou chuva.
  2. O efeito é indireto, através de alterações na circulação atmosférica global que podem favorecer mais instabilidade (mais depressões, mais chuva) ou o contrário, dependendo de outros fatores que interagem ao mesmo tempo (como a MJO — Oscilação de Madden-Julian, referida também pela Luso Meteo).
  3. A própria Luso Meteo questionou, recentemente, precisamente isto: mais chuva e mais tempestades em Portugal — sinal de que a tendência apontada por alguns modelos é para um regime mais instável e chuvoso no território português nos próximos meses, mas sem certezas fortes atribuíveis apenas ao El Niño.
  4. Para a Madeira em particular, o fator que tende a pesar mais do que o El Niño em si é a temperatura anormalmente alta do Atlântico junto à costa - mencionada pela Luso Meteo a propósito de Agosto — que favorece noites mais quentes e alguma persistência de calor, independentemente do que acontece no Pacífico.

Resumindo: a Madeira não deve esperar um impacto direto e dramático do El Niño como acontece, por exemplo, no Sudeste Asiático ou no Brasil. O que pode sentir é um efeito de 'pano de fundo' - maior probabilidade de oscilações mais bruscas (períodos de calor intercalados com entradas de mau tempo atlântico), num contexto global já marcado por temperaturas oceânicas elevadas. As entidades oficiais (IPMA) mantêm-se cautelosas e sublinham que vão continuar a acompanhar e atualizar a informação, precisamente porque a ligação Madeira-El Niño não é linear nem garantida.