Uma referência de destaque: Pietro Luigi Valle será sempre uma das maiores figuras do turismo madeirense
Há pessoas que ocupam cargos importantes. Mas há aquelas que, sem precisarem de levantar a voz, acabam por marcar uma época inteira. Para mim, o Dr. Pietro Luigi Valle pertence claramente a esse segundo grupo.
Se um dia a história do turismo moderno da Madeira for escrita com o detalhe que merece, o nome de Luigi Valle terá obrigatoriamente um capítulo próprio. Como administrador e vice presidente do Grupo Pestana durante quase quatro décadas, ao lado do Dr. Dionísio Pestana e de Peter Booth, ajudou a construir aquele que hoje é, provavelmente, o grupo hoteleiro português com maior presença internacional. Eu costumo dizer que eram os três mosqueteiros daquele projeto.
Mas reduzi-lo ao turismo seria profundamente injusto.
Antes disso já tinha deixado a sua marca na Zona Franca da Madeira, nos seus negócios e no associativismo empresarial. Foi Cônsul Honorário de Itália no Funchal durante muitos anos, aproximando dois países que sempre sentiu como seus, a Madeira acima de tudo era sua. Foi distinguido pela República Italiana e, para quem gosta de automobilismo, ficará também ligado para sempre ao Rali Vinho Madeira, competição que ajudou a elevar ao Campeonato da Europa e que trouxe à Madeira alguns dos maiores nomes da modalidade, entre eles o inesquecível Ari Vatanen.
A minha história com ele começou no final de 2008.
Já em novembro, a Carlota Cavaco falou comigo sobre a possibilidade de integrar a estrutura de direção do Casino da Madeira. Pouco tempo depois entrei no gabinete do Dr. Luigi Valle para uma segunda conversa. A entrevista foi rápida. A decisão também. Entrei praticamente de imediato.
Numa primeira fase reportava diretamente à Carlota. Mais tarde, quando ela assumiu outras funções na estrutura central do Grupo Pestana, passei a trabalhar diretamente com o Luigi.
Até aí ele já era uma referência para mim. Lembro-me perfeitamente de, nos primeiros anos de ralis do meu irmão, o ouvir como comentador das transmissões da RTP Madeira e das rádios durante a Volta à Ilha. Já conhecia a sua ligação ao Rali Vinho Madeira, sabia da importância que teve na sua internacionalização e admirava o percurso profissional que todos conhecíamos.
Foi só quando comecei a trabalhar ao seu lado que percebi como era possível alguém conseguir fazer tanto.
Na altura tinha responsabilidades na administração do Grupo Pestana no Brasil e na Venezuela, acompanhava projetos na Europa, mantinha os seus restantes compromissos institucionais e, ainda assim, o Casino da Madeira continuava a ser o seu bebé.
Para ele não existiam fusos horários. Existiam prioridades.
Lembro-me dos seus inseparáveis lápis, da borracha, do afiador, da sebenta sempre ao lado, das intermináveis análises às alíneas dos P&L, da obsessão pelo detalhe e daquela forma muito própria de responder com os seus inesquecíveis “sim, sim, sim”.
E lembro-me também de uma característica que ainda hoje me faz sorrir.
A sua capacidade quase sobrenatural para poupar. Ou, em bom madeirense, uma forretice absolutamente lendária.
Nunca vi nada igual.
Sempre que hoje encontro alguém particularmente forreta digo, em tom de brincadeira: “Não sejas Luigi.” Quem o conheceu ri imediatamente. Quem não o conheceu fica sem perceber do que estou a falar. Não faz mal. Eu continuo a achar graça.
Aliás, houve um episódio que nunca esquecerei.
O carro da empresa demorava a chegar. Eu insistia que precisava dele. Um dia aparece-me no gabinete com um recorte de jornal na mão. A notícia dizia que os ministros na Holanda iam trabalhar de bicicleta.
Olhou para mim como quem tinha acabado de encontrar a solução perfeita.
Eu tentei explicar-lhe, com toda a calma possível, que a Madeira tinha algumas subidas ligeiramente mais complicadas do que os Países Baixos.
Felizmente, no final desse mês, o carro acabou mesmo por chegar.
São estas pequenas histórias que ficam.
Ao longo dos anos a relação profissional transformou se em cumplicidade e amizade. A vida levou-me para outros projetos, mas nunca perdemos o contacto.
Hoje a conversa já é diferente.
Hoje não há palavras.
Hoje falamos sobretudo com o olhar.
Fui visitá-lo e bastou esse silêncio para lhe agradecer tudo. A oportunidade que me deu, a confiança, a amizade e tudo aquilo que fui aprendendo enquanto trabalhei ao seu lado.
“Chi sa...” Há agradecimentos que não precisam de discursos.
Basta um olhar.
Para mim, o Dr. Pietro Luigi Valle será sempre uma das maiores figuras do turismo madeirense, um gestor extraordinário, um homem de inteligência invulgar e um dos profissionais mais marcantes que tive a felicidade de conhecer.
E, se tudo correr bem, ainda esta semana voltaremos a conversar.
Sem palavras.
Só com os olhos.
A mim, isso basta.