Utentes do lar da Misericórdia do Funchal vão pagar mensalidades de 5.000 euros?
A Santa Casa de Misericórdia do Funchal inaugurou, na segunda-feira, o Complexo Social de Santa Clara, no Funchal, uma unidade destinada a idosos que inclui lar – Estrutura Residencial para Pessoas Idosas (ERPI) – que pode receber até 85 utentes, centro de dia, cinco residência assistidas, piscina terapêutica, enfermagem permanente e outras valências.
Uma unidade que também reserva 20 camas para vagas sociais – comparticipadas pela Segurança Social – e 15 para receber idosos em situação de alta clínica hospitalar, as chamadas ‘altas problemáticas’.
Uma unidade para idosos que oferece alguns serviços inovadores e que foi construída ao abrigo do Plano de Recuperação e Resiliência e custou mais de 13 milhões de euros.
Ainda antes da inauguração já havia comentários, nas redes sociais, a contestar os preços previstos para o Complexo Social de Santa Clara apontando o valor de 5.000 euros mensais por utente. Será verdade?
Logo após serem publicadas as notícias da inauguração, multiplicaram-se os comentários como o de Nádia Dias, no Facebook: “Quando um quarto chega aos 5.000 €/mês, é legítimo perguntar onde termina o custo do serviço e onde começa o privilégio. Para a maioria das famílias, é um valor simplesmente incomportável. Se 5.000 € por mês é considerado ‘justo’, talvez seja altura de discutir também quem consegue realmente aceder a estes cuidados. Envelhecer com dignidade não devia depender da carteira.”
Também Rafael Gouveia criticava os preços que, segundo ele, seriam praticados neste lar: “5 mil euros é o valor por mês, é a notícia que foi divulgada”.
Um terceiro comentário, selecionado entre muitos semelhantes, é de ‘Jesus Magnifica’: “O valor é muito elevado, 5000 mil euros, os idosos não têm essas reformas.”
Perante estas críticas é pertinente verificar se têm fundamento. Basicamente se as mensalidades a cobrar aos utentes serão de 5.000 euros ou se poderão atingir esse valor.
Desde logo convém atender ao que disse, na inauguração, o provedor da Santa Casa da Misericórdia do Funchal.
Jorge Spínola informou que o preço das camas privadas – exclui as vagas sociais e altas clínicas – começam no 1.250 euros mensais, um valor a cobrar por utentes em quartos duplos e com acesso a todas as valências do lar.
Também foi referido que, no caso das residências assistidas, a mensalidade poderá ultrapassar os 5.000 euros. Só que este é um caso muito particular, desde logo porque são apenas cinco residências que poderão representar cerca de 10 utentes. As residências assistidas são apartamentos, sobretudo para casais com autonomia que optam por residir na instituição, beneficiando de todos os serviços, mas fazendo a sua vida normal.
Ou seja, fica já claro que os 5.000 euros de mensalidade dizem respeito, apenas, à situação particular das residências assistidas, um serviço de luxo que também é oferecido por outras instituições, nomeadamente da área da hotelaria.
Mesmo assim, estando claro que a grande maioria dos utentes do lar não pagará 5.000 euros, importa saber se os valores praticados para a maioria dos idosos estarão dentro da média.
Uma pesquisa nos lares privadas e de Instituições Particulares de Solidariedade Social permite concluir – há vários dados estatísticos disponíveis - que os preços médios variam entre os 1.250 e os 2.000 euros, sendo o primeiro valor para quarto duplo partilhado e o segundo para quarto individual. Valores semelhantes ao que foi divulgado pela Santa Casa da Misericórdia do Funchal.
Mais uma vez, os valores de referência estão dentro da média dos lares da Região.
Fora destas contas estão as 20 camas para vagas sociais que terão uma mensalidade calculada, como acontece nos outros lares, que tem em conta a pensão do idoso e a sua capacidade financeira, sendo o excedente pago pela Segurança Social.
Outra questão que se justifica esclarecer é se os preços dos lares, na Madeira, estão dentro da média nacional.
Neste caso também é possível encontrar diversas análises estatísticas de sites especializados como ‘Viasenior’ ou ‘Lares Online’ que comparam os calores médios por distrito. Curiosamente não incluem dados das regiões autónomas.
Com dados de Janeiro de 2026, é possível concluir que a mensalidade média cobrada nos lares ao nível nacional é de 1.852 euros, um aumento de 10% em relação ao ano passado.
Os valores apresentados também mostram que, para um quarto duplo partilhado, a média é de 1.672 euros e para um quarto individual atinge os 2.035 euros.
Por distritos, os valores médios mais elevados são em Viana do Castelo (2.188 euros), Viseu (2.087 euros), Lisboa (2.070 euros), Aveiro (2.034 euros) e Porto (2.014 euros). Os mais ‘baratos’ surgem nos distritos da Guarda (1.323 euros) e Évora (1.358 euros).
Os preços dos lares dependem, desde logo, dos serviços prestados mas, também, da localização e dos salários praticados.
Por tudo isto é possível concluir que, primeiro, o Lar de Santa Clara não vai cobrar 5.000 euros a todos os utentes e que as mensalidades praticadas estão na média regional que, por sua vez, não está entre os valores mais elevados praticados no continente.
Conclui-se que, face ao que foi apurado, os comentários no Facebook não são correctos. Apenas um número reduzido de utentes, em residência assistida, poderão pagar 5.000 euros. A generalização é falsa.