O livro de S. Cipriano
Só os mais velhos devem saber a história a que me refiro, mas vou tentar explicar, resumidamente, para os mais novos o que é a história do livro de S. Cipriano (S.C.) também conhecido como livro de capa preta. É dos livros de bruxaria mais famosos que começou a ser impresso no século XIX, cuja versão portuguesa data de 1846, versando sobre magia negra, mitos e superstições.
Lembro, sentado no colo do meu pai, com 4/5 anos de idade, ele contar para a minha mãe, tias e avó, bordando à luz do candeeiro a petróleo, a historia deste Santo que dizia que nunca ninguém havia lido a história dele porque ninguém chegava ao fim do livro e aqueles que conseguiam, acabavam por enlouquecer e não conseguiam contar a história. Por isso ninguém sabe ao certo a verdadeira história de S. Cipriano, ao pormenor, contando-a à sua maneira.
Lembrei-me, casualmente, desta história para fazer uma analogia entre essa lenda e os modernos computadores, telemóveis e mais tarde, Inteligência Artificial. Assim como não se chegou ao final da história de S.C. , também muito poucos - talvez alguns engenheiros de software - conseguem chegar ao fundo da dimensão destas máquinas infernais que ameaçam ultrapassar a inteligência humana.
Saliento que não estou contra as novas tecnologias, até porque elas já não voltam atrás, só quero fazer um paralelo entre duas realidades, uma do século XIX e outra do século XX que passados 180 anos poderão constatar realidades distintas.
Agora, imagine-se; pessoas de meia idade, para já não falar dos mais idosos, gerações atuais e vindouras, conseguirão chegar ao fim da leitura que a IA nos quer moldar? Pois bem, aí está a razão da minha analogia entre o livro de S. Cipriano e os computadores.
Senão, vejamos; O hardware - parte física e tangível dos computadores - já é complicado para pessoas mais antigas pouco familiarizadas com as novas tecnologias, mas depois vem o hardware – o cérebro do funcionamento dos dispositivos eletrónicos, programas, dados e regras – que a par de palavras estrangeiras, em conjunto, compõe um computador.
Experimentem (aqueles menos familiarizados com as novas tecnologias) abrir uma conta no computador ou telemóvel; vai deparar-se com uma série de questões que perde logo a vontade de o fazer. É e-mail, é palavra-passe, é download, permissões para APP , Links, compatibilidade com dispositivos úteis . São aplicações (APP) contas bancárias (net bank) depois, se esquecer a p. passe, tem apenas 3 tentativas, senão será bloqueado e terá que começar o processo de novo. Quando pensamos que estamos a acabar diz que perdeu o tempo a enviar o código que recebeu por SMS ou e-mail ou então diz que a sua APP está desatualizada.
Depois temos que memorizar sites e palavra-passe- ninguém consegue - e decifrar uma série de avisos em inglês, o que obriga a tirar um curso de língua estrangeira. Quando se chega ao fim já não se lembra como começamos e não sabemos para que serve o que estivemos tanto tempo a fazer.
Isto, ao contrário do possa parecer, não é um caso menor porque mexe com o dia a dia das e com a os nervos das pessoas, pois que todos precisamos de uma conta bancária através do net banco, da APP da Segurança Social, do Serviço social de Saúde (SN24) para o Simplifica, o portal em que temos vários serviços do cidadão e – não vou dizer por ultimo porque ainda à muito mais – vem a chave digital do cidadão – mais outro grande quebra cabeças - que dá acesso a vários serviços digitais que no futuro não podemos passar sem eles. Se se esquecer da senha tem que ir a correr à Loja do Cidadão para recupera-la. Imagine o tempo que se perde com tecnologias que -supostamente - vieram para nos facilitar a vida. Se tentar aceder ao site gov.pt, prepare-se para uma grande dor de cabeça e dificilmente atingirá o seu objetivo. Prevejo que se a atual geração chegar aos 70/80 anos terá que ter um robot para gerir palavras-passe, e-mail, chave digital e mais não sei quê. Atrever-me-ei a sugerir que perante tanta tecnologia complicada, se crie uma central (tipo 112) para ajudar as pessoas que entram em desespero porque não conseguem chegar ao fim, tal como aconteceu com o livro de S. Cipriano. Nunca cheguei a ler o livro conheço-o apenas pelas narrativas do meu pai, mas só por abordar histórias antigas de bruxaria com esta tecnologia moderna já sinto os chips do cérebro a esturricar. Isto é uma aventura para a geração vindoura.