Haverá cada vez mais incêndios em automóveis nos túneis da Madeira?
‘Incêndio em viatura obriga ao encerramento do Túnel da Encumeada’. Este foi o título de uma notícia, na edição on-line do DIÁRIO, publicada na tarde da última sexta-feira. O texto suscitou algumas dezenas de reacções, nas plataformas do DIÁRIO, algumas manifestando preocupação com o fenómeno, outras, de alguma forma, desvalorizando por já ter acontecido várias vezes, sem consequências de maior.
No entanto, os factos confirmarão que há cada vez mais incêndios em automóveis no interior de túneis, na Madeira?
Para avaliar a afirmação, procurámos identificar incêndios em automóveis ocorridos no interior dos túneis da Madeira ao longo das últimas duas décadas. A pesquisa incidiu sobre notícias publicadas na imprensa regional, recorrendo a diferentes expressões relacionadas com veículos incendiados, viaturas em chamas e ocorrências em túneis.
O levantamento não pretende constituir um registo oficial e completo de todos os casos. A forma como estes acontecimentos foram descritos variou ao longo dos anos e nem todas as ocorrências terão sido necessariamente noticiadas. Ainda assim, os episódios encontrados permitem perceber se existe uma evolução claramente ascendente ou se estamos perante acontecimentos irregulares, distribuídos ao longo do tempo.
Uma das referências mais antigas identificadas remonta a 2004, quando um veículo se incendiou num túnel próximo do Caniço. Em Maio de 2008 ocorreram dois casos em dias consecutivos: um no túnel da Ribeira Brava e outro no túnel João Abel de Freitas, no Funchal.
Em 2011, foi noticiado um incêndio numa viatura no túnel dos Viveiros. Dois anos depois, em Janeiro de 2013, um veículo ardeu no túnel entre a Madalena do Mar e o Arco da Calheta.
No mês seguinte aconteceu uma das ocorrências com maiores consequências entre as identificadas. Um automóvel incendiou-se no túnel da Quinta Grande, obrigando à intervenção dos meios de socorro e provocando a intoxicação de vários automobilistas devido à inalação de fumo.
O túnel da Quinta Grande voltou a surgir associado a um incêndio num veículo em 2014. Seguiram-se casos no túnel da Camacha, em 2015, e no túnel da Abegoaria Este, em 2017.
Em 2019, outro automóvel incendiou-se no túnel da Cancela. Em Dezembro de 2020, foi noticiado um incêndio no interior do túnel do Cabo Girão, embora, neste caso, a informação disponível aponte sobretudo para o fogo na carga transportada, não permitindo concluir com segurança que a viatura tenha ardido.
Nos anos mais recentes, encontrámos referências a um incêndio no túnel da Abegoaria, em 2023, e a outro no túnel da Quinta da Palmeira, em 2024. A estes casos junta-se, agora, o incêndio ocorrido no túnel da Encumeada.
Os episódios identificados confirmam que o fenómeno não é inédito, nem se limita aos últimos anos. Há registos distribuídos por diferentes pontos da rede viária e por um período superior a duas décadas.
No entanto, a sucessão cronológica não revela um aumento contínuo. Há anos com mais de uma ocorrência e períodos de vários anos em que não foi encontrado qualquer caso. Em 2008 e 2013, por exemplo, registaram-se dois incêndios em espaços temporais muito próximos. Isso não se repetiu, de forma consistente, nos anos seguintes.
Também não se observa uma concentração progressiva nos anos mais recentes. Pelo contrário, parte significativa das ocorrências encontradas aconteceu entre 2004 e 2017. Depois disso, os casos surgem de forma espaçada, sem que os dados permitam identificar uma tendência sustentada de crescimento.
Importa, ainda, distinguir o número absoluto de ocorrências da percepção pública criada por cada episódio. Um incêndio num túnel obriga frequentemente ao encerramento da via, provoca filas de trânsito, mobiliza vários meios de emergência e pode gerar imagens de grande impacto. Estas características dão ao acontecimento uma visibilidade superior à de muitos outros incidentes rodoviários.
A existência de mais túneis, de maior circulação automóvel e de uma divulgação mais rápida das ocorrências através das plataformas digitais também pode aumentar a percepção de frequência, mesmo sem corresponder a um crescimento efectivo do número de casos.
O levantamento confirma que os incêndios em automóveis no interior dos túneis constituem um risco real e repetido na Madeira. Alguns obrigaram ao encerramento prolongado das vias e, pelo menos num dos casos identificados, houve automobilistas afectados pela inalação de fumo.
Contudo, os registos disponíveis não sustentam a afirmação de que acontecem cada vez mais. As ocorrências distribuem-se de forma irregular ao longo de mais de 20 anos, sem uma progressão contínua ou uma concentração clara nos anos mais recentes.
Pelo exposto, a afirmação de que há cada vez mais incêndios em automóveis nos túneis da Madeira é avaliada como falsa. O fenómeno não é novo e já ocorreu em diferentes épocas e túneis, mas os casos identificados não revelam uma tendência consistente de aumento.