Recente onda de calor foi a mais letal em França desde 2003
A vaga de calor que atingiu França entre 17 de junho e 02 de julho provocou 5.764 mortes em excesso, o valor mais elevado desde a canícula de 2003, revelou hoje a agência Santé publique France (SpF).
Metade destas mortes em excesso, que também afetou faixas etárias mais jovens, embora dois terços das vítimas tivessem 75 ou mais anos, foi registada em apenas três dias, entre 25 e 27 de junho, indicou a agência estatal.
O aumento da mortalidade por todas as causas -- que ainda não pode ser atribuído com certeza ao calor -- foi observado "em todos os grupos etários a partir dos 15 anos", com "um aumento acentuado a partir dos 45 anos", uma situação considerada "inédita" pelos especialistas.
Os dados sobre a mortalidade, que continuam a ser monitorizados e escrutinados nas últimas semanas, têm suscitado um intenso debate político em França, com a oposição a acusar o Governo de falta de preparação para as consequências das alterações climáticas.
O Governo francês tem procurado afastar comparações com a vaga de calor extremo de 2003, que causou cerca de 15 mil mortos em excesso, muitos deles em lares de idosos.
Ainda assim, o gabinete da ministra da Saúde francesa, Stéphanie Rist, salientou hoje que, "apesar do episódio extremamente intenso de junho (...), o número de mortes em excesso registado é claramente inferior" ao de 2003, lembrando que a vaga de calor desse ano durou cerca de três semanas, enquanto a deste ano se prolongou por 16 dias.
O especialista da SpF Guillaume Boulanger alertou, contudo, para a necessidade de prudência na comparação entre os dois episódios, separados por mais de duas décadas, devido à evolução dos sistemas de saúde e ao envelhecimento da população.
A agência estatal recordou que a recente vaga de calor, que afetou grande parte da Europa, foi marcada por uma "precocidade" e uma "duração sem precedentes", atingindo praticamente toda a população francesa numa altura em que ainda decorriam atividades escolares e profissionais.
Dois terços das mortes em excesso registaram-se entre pessoas com 75 ou mais anos, grupo particularmente vulnerável devido ao estado de saúde mais frágil.
No entanto, a mortalidade aumentou também de forma significativa entre as pessoas com idades entre os 45 e os 64 anos, com 979 mortes em excesso, o equivalente a um aumento de 55% face ao esperado para este período.
A SpF sublinhou que estes números permanecem provisórios, aguardando-se para o outono uma avaliação das mortes efetivamente atribuíveis ao calor.
Segundo a agência, é provável que o balanço venha a aumentar, uma vez que parte das mortes atualmente classificadas como dentro da mortalidade normal poderá vir a ser atribuída às temperaturas extremas.
Na região de Paris, particularmente afetada, a mortalidade duplicou em relação ao nível habitual, com 1.999 óbitos.
As mortes aumentaram "em todos os tipos de estabelecimentos", incluindo hospitais, lares e residências para idosos, mas "sobretudo nos domicílios", destacou Guillaume Boulanger.
A este balanço juntam-se ainda cerca de 300 mortes em excesso registadas durante a primeira vaga de calor do ano, entre 24 e 28 de maio, menos intensa e mais curta.
França enfrentou ainda um terceiro episódio de calor extremo em meados deste mês de julho.
Segundo os especialistas, a exposição repetida a vagas de calor provoca um desgaste progressivo do organismo, afetando em especial crianças, idosos, pessoas em situação de vulnerabilidade e doentes crónicos.
Embora os dias de canícula representem apenas entre 4% e 5% dos dias do verão, concentram cerca de 30% das mortes atribuíveis ao calor durante esse período.
"A exposição ao calor pode ter impacto na mortalidade durante todo o verão", salientou Guillaume Boulanger.
Em 2025, foram contabilizadas em França cerca de 1.900 mortes atribuídas ao calor durante três episódios distintos de canícula, mas o número total de mortes atribuíveis às temperaturas elevadas entre 01 de junho e 30 de setembro desse ano atingiu aproximadamente 5.700.