Acordo ortográfico "foi inútil"
O professor e linguista Marco Neves considera que o Acordo Ortográfico (AO) "falhou" no objetivo de unificação da língua portuguesa, sendo hoje "completamente inútil" e criando tensões desnecessárias.
"Eu acho que o acordo acabou por falhar, e isso é a minha opinião, está aplicado em Portugal, sem dúvida, está aplicado no Brasil também, em alguns países africanos, mas falhou porque não criou uma unificação ortográfica, que era o seu grande objetivo", afirmou, em entrevista à Lusa.
"Falhou porque, neste momento, temos Angola a usar a ortografia anterior, temos Portugal e Brasil a usar ortografias do acordo, mas também não são exatamente a mesma, portanto, não se fez uma unificação completa, e acabámos por ficar, na prática, com três ortografias. Aquela que é usada, por exemplo, em Angola, a que é usada em Portugal e a que é usada no Brasil", acrescentou.
Para o professor e tradutor, a ortografia "nunca foi uma barreira" na comunicação entre os países falantes da língua portuguesa e mascara as verdadeiras dificuldades do mercado lusófono.
"O acordo foi vendido como uma forma de criar um espaço mais unitário, mas as verdadeiras barreiras à circulação de livros e de informação no espaço da língua portuguesa são barreiras alfandegárias, barreiras comerciais, não são barreiras ortográficas. Portanto, a minha opinião, é que foi completamente inútil", disse.
Lembrou ainda que a ortografia sempre foi o ponto mais "estável" da língua.
"Foi um acordo só sobre ortografia, que por acaso é o ponto da língua mais estável e ao mesmo tempo também onde há menos diferenças, porque as grandes diferenças entre o português dos vários países, são no vocabulário, às vezes a sintaxe, [...] os termos técnicos, aí também há bastantes diferenças", salientou.
Autor de várias obras sobre linguística, Marco Neves dá o seu próprio exemplo numa recente viagem ao Brasil para o lançamento do livro "Queria? Já Não Quer?", escrito com a ortografia portuguesa antiga, para referir que "ninguém se queixou", e observar que as pessoas "sabem disso, sabem que há pequenas diferenças".
Outro exemplo de que se socorre é o da língua inglesa, onde as duas ortografias [inglesa e americana] convivem pacificamente e todos continuam "amigos como dantes". E o caso de Espanha "é também um bom modelo, com as várias academias a conversarem entre si" fazendo ajustes ao longo do tempo.
No caso da língua portuguesa, "é tudo muito mais 'ad-hoc'. Cada país tem uma forma diferente de encarar a língua e as coisas não funcionam muito bem". Com o AO "criou-se uma série de problemas e de tensões e de questões que são escusadas", observou.
"Não nos podemos esquecer que o acordo foi feito numa época (1990) em que já tínhamos em Portugal e no Brasil também, com velocidades diferentes, uma taxa de alfabetização relativamente elevada, em Portugal aproximadamente 100%. Nos países africanos de língua portuguesa tínhamos situações muito diferentes, não só de alfabetização, mas também e principalmente da utilização da própria língua portuguesa", lembrou.
Hoje há uma realidade diferente, mas cada país tem uma relação distinta com a língua oficial, desde a Guiné-Bissau "onde pouco se fala o português", ou o caso de Angola, onde a língua portuguesa está em forte "crescimento".
Outra reflexão feita por Marco Neves passa pelo crescimento da extrema-direita e pela "tendência em vários países para um maior nacionalismo", algum fator de xenofobia, que pode levar em Portugal a um crescimento da ideia de que nos devíamos bastar a nós próprios e não ouvir os outros países de língua portuguesa.
"Cada país tem o seu ritmo, e isto talvez não seja neste momento algo visível, mas no futuro poderá acontecer algo do género", admitiu.
Recordou a este propósito o que aconteceu na antiga Jugoslávia, onde "o nacionalismo linguístico" levou a que, cada uma das atuais nações tenha declarado uma língua diferente, "quando na verdade o croata, o sérvio, o montenegrino, o bósnio são a mesma língua", afirmou.
"Com o andar dos anos pode acontecer algo parecido com a língua portuguesa", alertou o professor e tradutor.
"Eu vejo muitas vezes, no discurso em Portugal, mesmo de pessoas que não estão associadas à extrema-direita, este quase desejo de que mais valia dizermos que o português é só nosso e que os outros, cada um deles, cria a sua língua e pronto", disse.
Mas a "diferença" e a "variedade" da língua portuguesa são para Marco Neves caraterísticas que a valorizam e enriquecem.
Olhando para as "velocidades" da aplicação do AO nos vários países de língua oficial portuguesa, o linguista sugere que as Academias possam liderar uma reforma que seria desejável.
"A Academia das Ciências de Lisboa e a Academia de Letras do Brasil e dos outros países, as várias academias que existem, podiam ter aqui um papel para resolver o problema, no sentido de fazer reformas, isto iria implicar andar para trás em alguns pontos, assumir algumas das mudanças", mas já que se fez o Acordo Ortográfico, pelo menos agora, "que se mude bem".