Conceição Estudante nunca se viu como uma política de carreira. Da administração hospitalar ao Governo Regional, diz que procurou sempre organizar serviços, integrar sistemas e encontrar respostas para melhorar a vida das pessoas.
A história de Conceição Estudante é, antes de mais, a história de uma gestora. Ao longo de quase um quarto de século de funções públicas, atravessou áreas tão distintas como a saúde, o turismo, os transportes e a cultura, mas rejeita a ideia de que tenha feito percursos diferentes. Na sua perspectiva, houve sempre um fio condutor: organizar serviços, gerir pessoas e encontrar respostas para problemas concretos. É essa visão, mais do que a dimensão política dos cargos que desempenhou, que marca toda a conversa com mais este Rosto da Autonomia.
Nascida no Funchal, na freguesia da Sé, e criada em São Pedro, recorda uma infância passada no centro da cidade. Frequentou o Colégio da Apresentação de Maria, prosseguiu estudos no Liceu e seguiu para Lisboa para estudar Direito. Quando ocorreu o 25 de Abril de 1974, já terminara a licenciatura. O regresso à Madeira não resultou apenas da mudança política. A morte prematura do pai, a mãe viúva e o desejo, partilhado pelo marido, de construir vida na Região pesaram igualmente na decisão. "Às vezes os comboios passam e nós ou entramos ou não entramos", resume, ao recordar esse momento da vida.
Esse "comboio" surgiu pouco depois, com a abertura de um concurso para administradores hospitalares. A licenciatura em Direito permitia-lhe concorrer e a condição era frequentar o Curso de Administração Hospitalar. Aceitou o desafio quase por acaso, mas cedo percebeu que encontrara a sua verdadeira vocação. Fez parte do quinto curso de Administração Hospitalar em Portugal e apaixonou-se por uma área que, admite, lhe despertava mais interesse do que a própria advocacia. A administração, a organização e a resolução de problemas concretos acabaram por se impor definitivamente ao exercício do Direito.
A entrada na administração hospitalar coincidiu com um período particularmente intenso da história recente da Madeira. Em meados da década de 1970, praticamente tudo estava por construir. Participou num levantamento das estruturas sanitárias da Região, trabalho que lhe permitiu conhecer de perto a fragmentação existente e a ausência de coordenação entre serviços. Pouco depois integrou a equipa que conduziu um dos primeiros grandes processos de reorganização do sector: a unificação administrativa dos três hospitais existentes. Em vez de estruturas duplicadas, passaram a existir serviços comuns de pessoal, contabilidade ou aprovisionamento. Recorda esses anos como um dos períodos mais estimulantes da sua vida profissional e reconhece que foi ali que consolidou a visão que mais tarde procuraria aplicar como governante.
Permaneceu cerca de dez anos na saúde. Quando sentiu que o processo de reorganização entrara numa fase de estabilidade, decidiu procurar novos desafios. Em 1986 aceitou um convite para trabalhar no Grupo Savoy. A mudança surpreendeu muitos, mas para Conceição Estudante a lógica era simples: ao fim de demasiado tempo na mesma organização, corre-se o risco de deixar de ver aquilo que precisa de ser corrigido. A passagem pela hotelaria permitiu-lhe conhecer um sector completamente diferente, embora insista que, do ponto de vista da gestão, um hospital e um hotel têm muito mais em comum do que normalmente se imagina. "Os clientes é que são outros", sintetiza.
Em 1992 regressou ao serviço público, convidada por João Carlos Abreu para directora regional do Turismo. Ainda hesitou, porque se sentia realizada no sector privado, mas acabou por aceitar. Foram oito anos que recorda com particular entusiasmo. Curiosamente, admite até ter gostado mais de exercer funções como directora regional do que, mais tarde, como secretária regional. A razão é simples: tratava-se de um cargo mais operacional, com contacto permanente com operadores turísticos, empresários e mercados internacionais.
Quando Alberto João Jardim a convidou para secretária regional dos Assuntos Sociais, em 2000, regressou ao universo onde iniciara a carreira. A tutela incluía saúde, segurança social, luta contra as dependências e protecção civil. O objectivo era claro: reorganizar o sistema. Ao contrário da imagem de mudanças impostas de cima para baixo, diz ter privilegiado sempre o diálogo com os profissionais e as instituições. Acredita que qualquer dirigente precisa, acima de tudo, de conquistar confiança e lealdade. "Se conseguimos passar a nossa visão para alguém, ganhamos essa pessoa. Se forçamos, encontramos resistência", afirma.
É precisamente desse período que identifica o principal legado da sua vida pública: a integração dos serviços de saúde. Considera que hospitais, centros de saúde e respostas sociais devem funcionar articuladamente, porque os problemas de saúde e os problemas sociais raramente existem separados. Foi essa convicção que levou à criação de centros cívicos onde cuidados de saúde e acção social passaram a coexistir fisicamente. Na sua perspectiva, o doente deve ser visto como uma pessoa única e não como um conjunto de processos repartidos por diferentes serviços. "Nós não nos fatiamos", resume.
Nem todas as reformas tiveram o desfecho pretendido. Continua a lamentar que um diploma destinado a resolver o problema das chamadas altas problemáticas tenha sido considerado inconstitucional. Acredita que a especificidade insular justificava uma solução própria e continua convencida de que a medida teria evitado muitos dos problemas que hoje persistem. "Tive razão antes do tempo", afirma, sem hesitação.
Outra mágoa prende-se com o novo hospital. O projecto chegou a ter arquitectura aprovada, mas o temporal de 20 de Fevereiro de 2010 alterou completamente as prioridades financeiras da Região. Aceita que a suspensão tenha sido inevitável, mas continua convencida de que a Madeira necessita de um hospital moderno, concebido para uma medicina de agudos e articulado com outras respostas de apoio.
Ao regressar ao Turismo, encontrou um sector profundamente transformado. Defende que a Madeira sempre procurou evitar um modelo de turismo de massas e recorda as negociações para o financiamento do alargamento do aeroporto, quando uma das preocupações das entidades financiadoras era precisamente impedir que a Região seguisse o exemplo de alguns destinos excessivamente massificados. Hoje reconhece o contributo do alojamento local para a regeneração urbana, mas considera que o crescimento turístico exige reflexão. "Crescer é uma coisa; desenvolver é outra." Para si, o verdadeiro desenvolvimento mede-se pela melhoria da qualidade de vida da população e não apenas pelo aumento do número de visitantes. É por isso que manifesta preocupação com a pressão sobre infra-estruturas, espaços públicos e recursos naturais.
Essa reflexão conduz inevitavelmente à Autonomia. Conceição Estudante considera que muito foi conquistado desde os primeiros anos do regime autonómico, mas entende que persistem limitações importantes, sobretudo no plano financeiro e na capacidade de adaptar respostas às especificidades insulares. Defende que áreas como a saúde deveriam beneficiar de um reconhecimento efectivo dos sobrecustos da insularidade e considera que esse continua a ser um dos grandes desafios do futuro.
Ao olhar para trás, não escolhe uma obra, um edifício ou uma decisão para resumir o seu percurso. Prefere falar de sistemas, de integração e de pessoas. É uma visão coerente com toda a sua carreira. Antes de ser política, foi administradora. E, mesmo quando ocupou alguns dos cargos mais relevantes do Governo Regional, nunca deixou de se ver, acima de tudo, como alguém cuja missão era fazer funcionar melhor as instituições ao serviço dos madeirenses.