Qualidade das águas costeiras da Madeira atestada mas monitorização é essencial
Resultados de projecto desenvolvido pela ARDITI entre 2024 e 2026 devem apoiar na tomada de decisão de entidades públicas e privadas com responsabilidade na gestão do mar e da costa
As águas da costa sul da Madeira apresentam, de um modo geral, boa qualidade, mas a monitorização contínua é essencial para compreender a dinâmica das correntes e prevenir os impactos da poluição costeira. Esta foi uma das principais conclusões apresentadas por Rui Caldeira, presidente do conselho de administração da ARDITI – Agência Regional para o Desenvolvimento da Investigação, Tecnologia e Inovação, no âmbito da sessão de apresentação dos resultados do projecto ‘MCIS – Madeira Coastal Insight Service’.
O projecto permitiu reunir um conjunto de dados científicos e de ferramentas que poderão apoiar a gestão das águas costeiras da Madeira, disponibilizando informação técnica sobre parâmetros como nitratos, nitritos, fosfatos e outros indicadores da qualidade da água, bem como um modelo de simulação do transporte de partículas ao longo da costa.
Segundo Rui Caldeira, trata-se de um exemplo de “ciência ao serviço da sociedade”, colocando ao dispor das entidades públicas, empresas de aquacultura e restantes utilizadores informação fiável para apoiar a tomada de decisões.
Beneficiando de fundos comunitários na ordem dos 160 mil euros, através do ‘Copernicus Marine Service’, o projecto, que está a terminar o ciclo de dois anos, agrega dados de satélite e modelos numéricos para fornecer previsões de qualidade da água com até três dias de antecedência.
Com o fim do projecto, a ARDITI e o Observatório Oceânico da Madeira pretendem continuar a monitorização, com a perspectiva de a mesma poder ser alargada a outras zonas costeiras da Região.
Entre os principais resultados destaca-se uma plataforma pública que permite simular a dispersão de partículas na água, possibilitando prever o percurso de potenciais plumas de poluição ou, inversamente, identificar a sua origem através de simulações retrospectivas. A ferramenta permitirá compreender melhor a influência das correntes costeiras, dos ventos e das marés no transporte de contaminantes ao longo da costa sul da ilha.
Apesar da avaliação globalmente positiva da qualidade das águas estudadas, Rui Caldeira alertou para o facto de os resultados não dispensarem uma vigilância permanente.
“Não basta um projecto de dois ou três anos para concluir que as nossas águas são de boa qualidade. Precisamos de sistemas de monitorização contínua e de ferramentas técnico-científicas que permitam acompanhar a evolução desta dinâmica ao longo do tempo”, deu conta aos jornalistas, antes da sessão de apresentação dos resultados do MCIS, que decorreu na manhã desta terça-feira.
Durante o projecto foi identificada uma corrente costeira que tende a reter massas de água junto ao litoral, tornando particularmente importante compreender o comportamento das descargas provenientes de terra. De acordo com o presidnete da ARDITI, grande parte das fontes de poluição resulta da actividade humana, nomeadamente das descargas das estações de tratamento de águas residuais (ETAR), podendo os poluentes ser transportados por vários quilómetros ao longo da costa.
Nesse contexto, explicou que descargas efectuadas em zonas como Santa Cruz podem atingir áreas costeiras distantes, como a Ponta do Pargo, enquanto descargas na zona de Câmara de Lobos poderão deslocar-se até ao Caniçal, dependendo das condições oceanográficas.
Área de estudo entre o Garajau e o Cabo Girão
O estudo incidiu sobre a faixa costeira compreendida entre o Garajau e o Cabo Girão, considerada a zona mais urbanizada da costa sul da Madeira. Durante dois anos foram realizadas campanhas mensais de amostragem e análise da água, cujos resultados alimentaram a plataforma digital e permitiram validar os modelos de simulação.
Entre as áreas consideradas mais sensíveis encontram-se as proximidades dos portos e das ETAR. Ainda assim, Rui Caldeira salientou que a proximidade do mar profundo à costa favorece uma dispersão relativamente rápida dos poluentes.
O investigador aproveitou ainda para esclarecer que sinais visuais, como espuma ou águas acastanhadas, nem sempre significam contaminação. A confirmação da existência de poluição exige análises laboratoriais que determinem a composição bioquímica dessas massas de água.
Embora o projecto MCIS esteja a concluir a sua fase financiada, o trabalho terá continuidade. As equipas da ARDITI irão prosseguir a recolha sistemática de dados e colaborar com a Direcção Regional do Ambiente e Mar no aperfeiçoamento das ferramentas desenvolvidas, reforçando o apoio à gestão ambiental e à aplicação das directivas europeias relativas à qualidade das águas.
Além da monitorização ambiental, as metodologias desenvolvidas poderão futuramente ser utilizadas na avaliação do impacto das correntes e da agitação marítima sobre infraestruturas costeiras, contribuindo para o planeamento e concepção de obras marítimas.
O projecto MCIS envolveu uma equipa de seis técnicos ao longo de dois anos e foi financiado por fundos europeus no âmbito do programa Copernicus.