Robô ortopédico do SESARAM é pioneiro nas ilhas portuguesas?
A cirurgia ortopédica assistida por robótica constitui uma das mais recentes evoluções tecnológicas nesta especialidade. Através de sistemas robotizados, os cirurgiões conseguem planear previamente a intervenção e executar procedimentos, como a colocação de próteses do joelho ou da anca, com maior precisão.
Foi neste contexto que o SESARAM adjudicou a aquisição de uma plataforma robotizada para o Hospital Dr. Nélio Mendonça. A notícia foi recebida com entusiasmo e, nas redes sociais, surgiram comentários que interpretaram a decisão como mais uma demonstração de que a Madeira está "na dianteira da inovação", chegando alguns a afirmar que o arquipélago seria pioneiro entre as ilhas portuguesas.
Terá razão quem sustenta que a Madeira é pioneira na cirurgia ortopédica robotizada nas ilhas portuguesas?
Para verificar a afirmação recorremos ao contrato de aquisição celebrado pelo SESARAM, à informação oficial divulgada pelos Governos da Madeira e dos Açores e às notícias publicadas sobre a entrada em funcionamento deste tipo de tecnologia nos hospitais públicos portugueses. O objectivo não foi comparar a qualidade dos equipamentos, mas estabelecer uma cronologia rigorosa da sua aquisição e utilização clínica.
Comecemos pela Madeira.
O Conselho de Administração do SESARAM adjudicou, em Junho deste ano, a aquisição de uma plataforma robotizada da Stryker, composta pelo braço robótico Mako e pelas aplicações destinadas à cirurgia da prótese total do joelho, prótese parcial do joelho e prótese total da anca. O investimento ascende a 1,299 milhões de euros, acrescido de IVA. O contrato foi assinado pelas duas partes nos dias 25 e 26 de Junho.
Contudo, esse contrato não significa que o equipamento esteja já em funcionamento. Como o próprio procedimento prevê, a entrega, instalação e formação das equipas apenas ocorrerão após a emissão da nota de encomenda, dispondo o fornecedor de um prazo máximo de 90 dias para concretizar essas operações. Acresce que o processo aguarda ainda o visto do Tribunal de Contas, condição necessária para que possa prosseguir.
Ou seja, no momento em que esta verificação é realizada, o SESARAM ainda não dispõe do robô instalado nem realizou qualquer cirurgia recorrendo a essa tecnologia.
Olhemos, agora, para o que aconteceu nos Açores.
No dia 7 de Julho de 2026, o Hospital do Divino Espírito Santo, em Ponta Delgada, realizou a primeira cirurgia ortopédica com recurso ao novo robô adquirido pelo Governo Regional dos Açores. Na ocasião, foi divulgado que o equipamento representou um investimento de cerca de 1,1 milhões de euros e marcou o início efectivo da actividade clínica robotizada naquela unidade hospitalar.
A informação oficial acrescenta ainda que, considerando também o equipamento existente no Hospital de Santo Espírito da Ilha Terceira, o investimento regional em robótica ortopédica ultrapassa os dois milhões de euros.
Importa notar que nem o contrato do SESARAM nem a comunicação oficial do Governo dos Açores reivindicam qualquer pioneirismo nacional. A questão colocada resulta antes da interpretação feita na mensagem objecto desta verificação.
É certo que a Madeira será uma das primeiras regiões portuguesas a dispor desta tecnologia quando o processo estiver concluído. Também é legítimo afirmar que o investimento representa um importante avanço na capacidade tecnológica do SESARAM.
Contudo, isso é diferente de afirmar que é pioneira.
Quando a Madeira assinou o contrato de aquisição, os Açores já tinham o equipamento instalado. Quando o processo madeirense aguarda ainda o visto do Tribunal de Contas, os Açores já realizaram a primeira cirurgia ortopédica robotizada.
Assim, a cronologia conhecida demonstra que a primeira utilização clínica desta tecnologia numa região insular portuguesa ocorreu nos Açores.
Pelo exposto, a afirmação de que a Madeira "volta a estar na dianteira da inovação em saúde" ou que é pioneira entre as ilhas portuguesas na cirurgia ortopédica robotizada não encontra sustentação nos factos disponíveis. A aquisição do equipamento constitui um passo relevante para a modernização do SESARAM, mas, até ao momento, o pioneirismo pertence aos Açores. Por essa razão, a afirmação é avaliada como falsa.