O “está tudo certo” e a ditadura do eu
Hoje, em qualquer esquina, estúdio de televisão ou rede social, há sempre alguém pronto a disparar a frase sacramental: “mas está tudo certo”. É uma espécie de absolvição moderna. Já não é preciso pensar, ponderar, conhecer o contexto ou, ousadia extrema, ouvir o outro lado. Basta dizer “está tudo certo” e, logo de seguida, explicar porque é que, afinal, só o meu sentir interessa, só a minha leitura conta e só a minha verdade merece horário nobre.
Vivemos numa época em que todos opinam sobre tudo e todos, muitas vezes com a profundidade de um copo de água e a convicção de um juiz desembargador. Um vídeo de quinze segundos, gravado no pior momento de alguém, chega para construir uma biografia, uma condenação moral e, se possível, um painel televisivo com três comentadores indignados e dois especialistas em coisa nenhuma. O contexto? Maçador. A história anterior? Complicada. A visão global da situação? Isso dá trabalho e estraga a narrativa.
O mais curioso é que a sociedade parece cada vez mais preocupada com o gesto visível e cada vez menos com a violência invisível. Uma chapada, naturalmente condenável, gera escândalo imediato. Mas anos de gritaria, humilhação, manipulação, provocação diária, pressão psicológica e destruição silenciosa da dignidade humana parecem ter menos audiência. Talvez porque não fazem tanto barulho na câmara. Talvez porque a violência psicológica não deixa nódoa negra para mostrar no ecrã, mas dá mesmo muitas audiências. Deixa apenas pessoas partidas por dentro, o que, convenhamos, é façil julgar.
E assim vamos vivendo nesta comédia moral em que o “eu” se tornou rei, juiz, vítima, acusador e comentador residente. O “eu acho”, “eu sinto”, “eu vivi”, “eu mereço” substituiu o “nós”, a responsabilidade e até o velho princípio, hoje quase arqueológico, de que o meu direito acaba onde começa o direito do outro. Princípio simples, incómodo e, por isso mesmo, cada vez menos popular.
A coletividade só funciona quando há equilíbrio, respeito e capacidade de olhar para além do episódio isolado. Mas isso exige maturidade, e a maturidade raramente dá audiências. Dá mais jeito a gritaria, a sentença rápida, o julgamento em direto e a ilusão de que cada pessoa é dona da verdade absoluta. No fim, talvez nem esteja tudo certo. Talvez esteja apenas tudo mais ruidoso, mais fútil e mais convencido de si próprio. E talvez a maior tragédia seja esta: já nem sabemos distinguir justiça de espetáculo.