Nem tudo se resolve com produtividade
Colocaram-me recentemente uma questão que tem uma resposta simples, mas que tem implicações para o nosso futuro mais relevantes do que inicialmente possa parecer.
A questão era como segue: se um quarteto de cordas de Beethoven exige, hoje, o mesmo tempo, as mesmas pessoas e os mesmos instrumentos, porquê que os músicos recebem hoje mais do que recebiam há 200 anos?
Causa alguma confusão, pois estamos habituados a pensar na variação salarial indexada a melhores resultados, melhorias de eficiência, alterações materiais das condições de trabalho, entre muitos outros fatores.
A razão é relativamente simples. Desde os tempos de Beethoven, houve um aumento generalizado dos salários, em grande parte impulsionados pelos ganhos de produtividade de diversos setores que adotaram inovações tecnológicas como a agricultura e a indústria.
Sem variação no salário do quarteto musical, enquanto o salário noutras profissões aumenta continuamente, estes terão de tomar a decisão de deixar a sua profissão escolhida e optar por outra que lhes permita viver com algum conforto.
Para evitar que os músicos abandonem a profissão e escolham outra mais lucrativa, os seus salários também têm que aumentar, independentemente da produtividade, sendo esse aumento suportado pelos clientes quando pagam o bilhete.
Desta forma, os profissionais de setores com ganhos de produtividade repartem os aumentos salariais com membros dos setores menos sensíveis a ganhos de eficiência, como as artes, a educação e os cuidados de saúde.
Está na natureza humana prever e projetar a evolução da realidade à nossa volta, com particular atenção ao que as alterações tecnológicas e científicas podem trazer. Tal como a agricultura e a indústria transformaram a produtividade no passado, muitos acreditam que a IA poderá representar a próxima grande revolução produtiva.
É importante notar que, mesmo que as expetativas mais favoráveis quanto à IA se materializem, existem problemas estruturais, com os quais a Madeira e Portugal terão que lidar.
Da mesma maneira que um quarteto de Beethoven continua a precisar de quatro pessoas, um cuidador num lar continuará a ter de dedicar tempo, presença e atenção humana aos seus residentes. A IA poderá ajudar na organização de equipas ou reduzir a carga administrativa, mas nunca irá multiplicar um cuidador da mesma forma que multiplica programadores.
Independentemente das putativas melhorias tecnológicas que possam estar a chegar, é importante notar que precisamos de abordar a nossa crise demográfica.
Em 2000, Portugal tinha quatro pessoas em idade ativa por cada idoso. A maior parte das projeções demográficas colocam este rácio em 2 ou 1,5 pessoas em idade ativa por idoso em 2050.
Dentro de uns anos teremos uma população ainda mais idosa, levando a um maior número de pessoas a necessitar de cuidados e a uma menor população capaz de prestá-los. A IA pode automatizar tarefas, mas nunca irá multiplicar o tempo, presença e atenção humana da qual muitas profissões dependem.