As crianças passam tanto tempo no infantário…
Depois de ter visto a reportagem na CNN Portugal “As crianças passam tanto tempo no infantário quanto os pais no trabalho, é muito preocupante” (01/06/2026) há um pensamento que tenho de partilhar para quem me segue e sabe o que eu faço como profissão. A frase que dá destaque à reportagem, dita assim, parece apenas uma constatação, mas basta deixá-la ecoar durante alguns segundos para se transformar numa pergunta desconfortável: quando é que as famílias têm tempo para ser famílias?
Vivemos numa sociedade que idolatra a produtividade, os horários cheios e a disponibilidade permanente. Os pais saem cedo, regressam tarde e, pelo meio, fazem malabarismos para cumprir responsabilidades profissionais e familiares. Não porque queiram estar longe dos filhos (se calhar, digo eu), mas porque, para muitos, essa é a Única forma de garantir estabilidade económica.
As crianças adaptam-se. Adaptam-se quase sempre. Aprendem rotinas, fazem amigos, brincam, crescem. E os infantários, sobretudo os bons infantários (detesto a palavra pois parece saída das profundezas de um regime militar, mas é a que temos…), fazem um trabalho extraordinário. O problema não está na instituição. Está no que a sua utilização revela sobre a forma como organizámos a vida adulta.
Quando uma criança passa dez horas por dia fora de casa, a questão deixa de ser apenas educativa. É humana. Quantas conversas ficam por ter? Quantas histórias deixam de ser contadas ao jantar? Quantos abraços são adiados porque o relógio corre mais depressa do que os afetos?
Falamos muito da importância da infância (junho pode-se considerar o mês da infância), mas quase nada do tempo necessário para a viver. Investimos em brinquedos, atividades, tecnologia, métodos pedagógicos, mas aquilo de que muitas crianças realmente precisam continua a ser algo simples e impossível de comprar: tempo de qualidade com as pessoas que amam.
Talvez o verdadeiro debate não seja sobre creches ou infantários. Talvez seja sobre o modelo de vida que construímos para os adultos, porque quando os pais vivem permanentemente a correr, as crianças acabam por correr atrás deles.
Uma sociedade que se preocupa com a infância não deve perguntar apenas quantas vagas existem nas creches. Deve perguntar também quantas oportunidades oferece às famílias para estarem juntas. Afinal, crescer é muito mais do que aprender cores, números ou canções. Crescer é ter alguém que esteja presente para as descobrir connosco.
E às vezes dá vontade de imaginar: e se as crianças pudessem fazer greve? Greve ao excesso de horas, ao cansaço, à pressa. Greve para reivindicar aquilo que é delas por direito: tempo, presença, vínculo.
Está na altura de toda a sociedade pensar no que realmente queremos para as crianças, senão, qualquer dia, nem crianças temos!
Tenho dito!
José Augusto de Sousa Martins