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Não basta celebrar as crianças

À medida que se aproxima o Dia da Criança, multiplicam-se as atividades, os discursos e as mensagens de celebração da infância. Tudo isso é importante. As crianças merecem alegria, atenção e momentos felizes. Nós também faremos porque é dia de assinalar e festejar. Mas talvez o maior desafio dos nossos dias esteja para lá das comemorações.

A verdadeira pergunta é outra: estamos efetivamente a criar condições para que as famílias consigam ter filhos, educá-los e dar-lhes estabilidade emocional, social e financeira?

A questão é particularmente importante numa altura em que Portugal enfrenta uma quebra da natalidade preocupante e uma sociedade cada vez mais envelhecida. Os jovens casais vivem hoje sob enorme pressão económica, dificuldades de acesso à habitação, instabilidade profissional e custos crescentes associados à educação e à infância.

Ao mesmo tempo, os desafios emocionais das novas gerações tornam-se mais evidentes. A UNICEF e a Organização Mundial de Saúde têm vindo a alertar para o aumento dos problemas de saúde mental entre crianças e adolescentes, agravados pelo isolamento, pela dependência digital e pelas novas formas de pressão social.

Um relatório europeu recente refere que uma parte significativa dos adolescentes apresenta sinais de ansiedade, dificuldades emocionais e uso problemático das redes sociais. A infância mudou profundamente em poucos anos. E muitas famílias sentem-se hoje mais sozinhas e mais cansadas no processo de educar.

Os pediatras alertam igualmente para o crescimento de problemas ligados ao excesso de exposição digital, às alterações do sono, às dificuldades de concentração e ao défice de socialização. São fenómenos silenciosos, mas cada vez mais visíveis nas escolas, nas famílias e nos serviços de acompanhamento.

Perante esta realidade, os municípios já não podem limitar-se apenas à gestão de estradas, passeios ou obras públicas. As autarquias têm de assumir também uma missão social, educativa e humana.

E é precisamente aqui que o investimento nas famílias ganha importância.

Na Ribeira Brava, várias juntas de freguesia têm vindo a desenvolver apoios à natalidade, numa tentativa de ajudar as famílias nos primeiros anos de vida das crianças. É um sinal positivo de proximidade e de consciência social.

Mas, enquanto município, não fazemos por menos. A Câmara Municipal aprovou recentemente um pacote de apoios para o ano letivo 2026/2027 superior a 400 mil euros, reforçando a aposta na educação, nas famílias e na igualdade de oportunidades. Assinamos um protocolo com a Junta de Freguesia de Benfica para que os nossos estudantes ou até professores em regime de estudante possa beneficiar de alojamento. Somos o único município da Madeira a fazer isso porque procuramos respostas. Entre as medidas encontram-se apoios às mensalidades de creches, jardins-de-infância e pré-escolar, comparticipações no ensino superior, bolsas que podem atingir os 720 euros para famílias com mais do que um filho a estudar, bem como vales de material escolar destinados a alunos do ensino básico e secundário. Mais do que números, estas medidas representam uma opção política evidente que passa por investir diretamente nas famílias e reduzir o peso financeiro associado à educação.

Porque apoiar as crianças não começa apenas no dia 1 de junho.

Começa quando uma família sente que não está sozinha. Começa quando os pais conseguem manter um filho no ensino superior sem terem de escolher entre pagar propinas ou despesas básicas. Começa quando uma mãe ou um pai encontram apoio para colocar uma criança na creche. Começa quando a igualdade de oportunidades deixa de ser apenas uma frase bonita e passa a existir na prática.

O recente seminário promovido pela CPCJ da Ribeira Brava sobre saúde mental e comportamentos aditivos mostrou também que esta preocupação vai muito para além da componente financeira. Hoje é impossível falar de infância sem falar de saúde emocional, prevenção e acompanhamento. As CPCJ, as escolas, as famílias, os técnicos e os municípios precisam de trabalhar em rede. Porque nenhuma entidade consegue responder sozinha aos desafios atuais.

Talvez esteja precisamente aí o verdadeiro significado do Dia da Criança. Não apenas celebrar a infância por um dia. Mas criar condições para protegê-la todos os outros. É o que queremos. Todos os dias. Sempre. Contem connosco.