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Deixem as crianças serem crianças, mesmo no mundo digital

Pelo que vejo, leio, e analiso, cada vez mais é pedido às crianças que tenham “altas notas” que depois são alvo de troféus escolares. Que sejam “Cristianos Ronaldos” no futebol, quando ainda nem sabem colocar muito bem o pé na bola nem identificar as posições do jogo, levando-as ao espírito precoce de competição, que as faz sofrer bastante quando os resultados não são o que deles desejam. O mesmo acontece em outras modalidades desportivas. É ver a cara de sofrimento quando as crianças não conseguem atingir os objetivos dos seus progenitores, sejam eles quem forem.

E ainda existem aquelas que por falta de tempo dos progenitores, são muitas vezes obrigadas a terem muitas atividades extra-curriculares, e então andam a correr de um lado para outro sem tempo para brincar e conviver com outras crianças, que sejam só apenas crianças. Este talvez seja um dos maiores problemas da atualidade.

Mas depois não se cuida do ambiente em casa, onde todos os problemas sociais vão bater e as crianças assistem a tudo, sendo em alguns casos também alvo de maus tratos e violência com consequências terríveis na vida delas. Muitas vezes, se não fossem as avós e avôs, o sofrimento ainda era maior.

Há na sociedade, e também nas escolas, conceitos errados sobre como fazer uma criança feliz. Uma criança pode não ter as melhores notas da turma, mas ser um ser humano fantástico, que deve ser homenageado pelo seu espírito solidário e a sua simpatia para com o outro. A diversidade é cada vez maior nas escolas, onde o ser diferente por vezes leva a situações de bullying e discriminação, e há tanta maneira de promover os bons hábitos fazendo da escola um lugar feliz. Quem dá o exemplo deve ser destacado para que a corrente solidária e não discriminatória se alargue a toda a comunidade escolar.

Sei que vão dizer que dizer que é mais fácil falar estando de fora, mas neste Dia Mundial da Criança temos o dever de alertar e sugerir ideias para corrigir o que está mal. Não alarguem o fosso com turmas de elite e as “outras”. Isso não devia acontecer nunca. As crianças são todas iguais e as oportunidades também devem ser iguais. Sempre haverá quem aprenda mais rápido e quem precise de mais tempo para aprender. Isso não devia ser motivo de gerar separatismo, mas sim inclusão. Nas escolas estão o melhor da humanidade e também o seu futuro. Saibamos cuidar dele.

Em relação ao uso das tecnologias por parte da criança, o problema não é saber usá-las para ajudar a sua aprendizagem. Acho até que podem ser uma grande mais-valia para o seu futuro. O problema reside no entregar um telemóvel a criancinhas muito pequenas como forma de as entreter para não “chatearem” os adultos. Falam em proibições nas escolas, mas ainda não ouvi falar em proibições por parte dos pais, pois são eles que cedem aos “pedidos”, sem medirem o “buraco” onde se estão a meter. Uma criança despreparada com um telemóvel na mão pode cair em erros graves e alguns sem retorno. É preciso que os adultos tenham consciência que é muito difícil controlar o que a criança vai ver no telemóvel, porque elas aprendem a lidar com eles à velocidade da luz. Conheço crianças que ensinam os adultos como chegar a um determinado site com toda a descontração e ainda “riem” da cara de parvos que nós fazemos.

Isto de viver na era da tecnologia vai exigir um grande esforço para defender os direitos das crianças e lhes explicar que há coisas que deverão continuar a ser mantidas, como saber fazer uma boa escrita e uma boa leitura sem abreviaturas, ler um livro físico sem virar a página antes de chegar ao fim, e sobretudo, conhecer a história dos seus próprios direitos. Proponho mesmo que a Declaração Universal dos Direitos das Crianças seja distribuída e discutida com todas as crianças, porque nela estão contidos muitos direitos que hoje estão a ser postos em causa.