Madeirense lidera comissão que avalia segurança das habitações em La Guaira
O luso-venezuelano Francisco Garcês está à frente de uma das missões técnicas mais sensíveis da resposta aos sismos que atingiram a Venezuela. Está conjuntamente com uma equipa de peritos a avaliar a habitabilidade das habitações e estruturas afectadas, garantindo que o regresso das famílias às suas casas só acontece quando existirem condições mínimas de segurança.
No cargo de presidente da Comissão Presidencial para a Avaliação da Habitabilidade das Habitações e Estruturas, Francisco Garcês acompanhou, em La Guaira, a inspecção a um conjunto residencial situado na zona do aeroporto, em Brisas del Aeropuerto, onde foram avaliadas 22 torres por equipas de engenheiros especializados em engenharia estrutural.
A missão tem uma importância decisiva nesta fase da emergência. Depois do impacto inicial dos sismos, das operações de busca e salvamento e da assistência às populações, é agora essencial perceber que edifícios podem ser reocupados, quais exigem intervenção prévia e que estruturas representam risco para moradores e equipas no terreno.
Durante a inspecção, Francisco Garcês explicou que a avaliação não pode limitar-se à observação das fissuras visíveis. Em muitos casos, é necessário retirar o friso ou revestimento dos elementos estruturais para confirmar se a fenda atinge o núcleo da coluna ou da viga, ou se se trata apenas de dano superficial.
“Quando há um elemento estrutural, uma coluna, é preciso retirar o friso e verificar se a fissura chega ao núcleo, para assegurar se está comprometido ou não”, explicou nas suas redes sociais onde mostrou vários prédios a serem alvo de inspecção.
O responsável com raizes familiares madeirenses sublinhou que nem todas as fissuras significam dano estrutural. Há situações em que as paredes e revestimentos apresentam danos significativos, mas os elementos que sustentam o edifício — vigas, colunas e sistema pórticos — permanecem sem afectação relevante.
Foi esse o cenário encontrado em parte das avaliações realizadas em Brisas del Aeropuerto. Segundo Francisco Garcês, há edifícios cuja estrutura principal não apresenta danos importantes, mas onde a alvenaria foi severamente afectada, impedindo a ocupação imediata.
“Encontrámos um edifício de quatro pisos cuja estrutura, vigas, colunas e sistema porticado não tem detalhes importantes nem danos. No entanto, a alvenaria foi severamente danificada. Isto implica que é uma estrutura reparável, mas que não pode ser habitada até que sejam executados os trabalhos de remoção e restituição dos elementos de cerramento”, afirmou.
A distinção entre dano estrutural e dano não estrutural é fundamental em contexto pós-sismo. As paredes podem abrir fissuras, os revestimentos podem cair e os elementos de enchimento podem ficar comprometidos, mas a segurança global do edifício depende sobretudo do estado das colunas, vigas e restantes componentes resistentes.
Francisco Garcês explicou ainda aos moradores como devem agir durante um sismo, aconselhando-os a procurar protecção em zonas mais seguras no interior da habitação e a evitar sair a correr enquanto o abalo decorre, devido ao risco de quedas, desprendimento de objectos e colapso de elementos não estruturais.
As inspecções em 'Brisas del Aeropuerto' mobilizaram cerca de duas dezenas de engenheiros, distribuídos pelas 22 torres do urbanismo. Outros grupos técnicos estão destacados noutras zonas de La Guaira, onde continuam as avaliações de edifícios residenciais, equipamentos e infra-estruturas afectadas.
O trabalho segue uma metodologia desenvolvida com apoio da Fundação para o Desenvolvimento da Engenharia Sísmica e da Universidade Central da Venezuela, através de fichas de avaliação que permitem classificar o estado das estruturas e definir recomendações para os passos seguintes.
A presença de Francisco Garcês na liderança desta comissão tem particular significado para a comunidade madeirense e luso-venezuelana, fortemente marcada pela tragédia em La Guaira. Num momento em que milhares de famílias procuram saber se podem regressar a casa, a avaliação técnica assume-se como uma resposta essencial para proteger vidas e evitar novos acidentes.
A Comissão Presidencial deverá manter-se no terreno nos próximos dias, prosseguindo a avaliação da habitabilidade em zonas afectadas pelos sismos. O objectivo é claro: garantir informação segura às populações, orientar as intervenções necessárias e impedir que o regresso às habitações aconteça antes de estarem reunidas condições de segurança.