Hezbollah exige que exército libanês ocupe posições de Israel
O grupo xiita Hezbollah exigiu hoje a retirada total de Israel do sul do Líbano, insistindo num calendário que permita que o exército libanês controle as posições atualmente ocupadas pelas forças israelitas.
"Temos agora um cessar-fogo...Israel não tem outra escolha senão retirar-se completamente de todo o território libanês", afirmou o líder do grupo libanês aliado do Irão, Naim Qassem, durante uma cerimónia religiosa.
As declarações do clérigo xiita surgem numa fase em que as negociações de paz entre o Irão e os Estados Unidos se encontram ameaçadas pela continuação dos confrontos entre Israel e o Hezbollah.
Hoje foram relatados novos ataques israelitas apesar de o acordo preliminar, alcançado na semana passada entre Washington e Teerão, prever a cessação completa das hostilidades entre os dois países e também no Líbano.
Para o Naim Qassem, a solução para o conflito passa pela retirada de Israel e o exército libanês deverá posicionar-se "em exclusivo a sul do rio Litani", a cerca de 30 quilómetros da fronteira entre os dois países.
"As operações israelitas por terra, mar e ar devem cessar, o exército libanês deve ser totalmente mobilizado, os prisioneiros devem ser libertados, os deslocados internos devem ser auxiliados a regressar às suas casas e a reconstrução das áreas afetadas pelo conflito deve começar", sustentou.
O secretário-geral do Hezbollah insistiu que Israel "não conseguiu atingir os seus objetivos e impor o seu projeto", referindo a criação de um "Grande Israel", e salientou que "a resistência e o povo libanês pagaram o preço, mas resistiram".
Ao mesmo tempo, reclamou o direito do seu movimento "à sua terra e à sua soberania", assinalando uma cooperação "ao mais alto nível" com o exército libanês.
"Israel não tem voz nos acordos que firmamos internamente, e qualquer intervenção deles deve ser evitada", advertiu, enquanto deixava uma recomendação às autoridades de Beirute.
"Aproveitem a resistência e a sua força. Estamos prontos", afirmou.
Sobre a evolução do conflito, explicou que a organização passou de uma fase de contenção para o combate direto quando considerou as circunstâncias apropriadas, e afirmou que as ações das suas milícias no terreno contribuíram para alcançar o atual cessar-fogo.
O pronunciamento do líder xiita acontece no dia em que o ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, Gideon Saar, argumentou que é o Irão e o seu aliado Hezbollah que violam a soberania do Líbano, apesar da presença de tropas israelitas no sul do país.
"Ouço declarações na comunidade internacional de que Israel está a violar a soberania do Líbano. Isso não é verdade. O Hezbollah é que está a violar a soberania do Líbano", disse o ministro israelita, citado pelo jornal The Times of Israel, concretizando que o país vizinho está "sob ocupação iraniana indiretamente pelo Hezbollah".
O chefe da diplomacia israelita referiu que o Hezbollah é "mais forte" do que o próprio exército libanês, uma situação que coloca como o "principal problema" para desbloquear as relações com Beirute.
O Presidente libanês, Joseph Aoun, reafirmou hoje pelo seu lado que não aceita "nada menos" do que a retirada total de Israel do país e o fim da ingerência estrangeira, numa referência ao apoio do Irão ao Hezbollah.
Aoun manifestou confiança de que as conversações com Israel, que hoje têm uma nova ronda em Washington, poderão resultar numa decisão para garantir os objetivos definidos por Beirute, que incluem "a restauração da plena soberania do Líbano sobre cada centímetro do território" e a aplicação da autoridade estatal em todo o país.
As inéditas conversações de paz entre Israel o Líbano, países sem relações diplomáticas, têm merecido a oposição do Hezbollah, que recusa também o desarmamento das suas milícias enquanto persistir a ameaça do país vizinho.
O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, alertou na segunda-feira que os soldados destacados no sul do Líbano "têm total liberdade de ação para neutralizar qualquer ameaça direta ou potencial contra eles ou contra os habitantes do norte" de Israel.
O Líbano foi arrastado pelas milícias xiitas libanesas para a nova guerra na região ao reatarem, no início de março, ataques aéreos contra o território israelita.
Israel respondeu com bombardeamentos intensivos e expandiu as posições militares que já mantinha no sul do país vizinho desde o conflito anterior.
Desde 02 de março, pelo menos 4.192 pessoas morreram e 12.171 ficaram feridas, de acordo com a última atualização do Ministério da Saúde libanês, em resultado dos ataques israelitas, que causaram também acima de um milhão de deslocados.
As partes tinham estado em confronto no seguimento da guerra na Faixa de Gaza, entre outubro de 2023 e novembro de 2024, data de um cessar-fogo nunca verdadeiramente respeitado e interrompido com o início do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irão.