Organização estima entre 700 e 1.500 vítimas de abusos sexuais em escola católica francesa
Entre 700 e 1.500 alunos, entre 1950 até ao final da década de 1990, sofreram abusos sexuais, físicos e psicológico na escola católica Notre Dame de Bétharram, perto da cidade de Lourdes, em França, divulgou hoje uma organização.
No seu relatório publicado hoje, o Instituto Louis Joinet (IFDJ) - organização não-governamental (ONG) contratada para conduzir a investigação a pedido da congregação religiosa que gere a escola - insistiu que a teoria de que estes números sejam "a soma dos atos individuais" é infundada.
Após um ano de trabalho, a organização referiu que aconteceu uma violência "sistémica" e "institucional", esclarecendo, no entanto, que os seus números são o resultado de projeções estatísticas, não de vítimas identificadas individualmente, e que devem ser interpretados com "extrema cautela".
A identificação de 37 alegados abusadores, entre religiosos e leigos, afasta a teoria de uma "simplificação dos atos individuais" e aponta mais para a organização de "crimes em massa" nesta escola e em outras da mesma congregação, referiu a ONG.
O caso veio a público em 2023 com a publicação de testemunhos de antigos alunos da escola, fundada em 1837.
As revelações sobre os abusos na escola de Notre Dame de Betharram contribuíram para a queda de popularidade do ex-primeiro-ministro centrista francês, François Bayrou (2024-2025), que teve de se demitir em setembro passado devido à falta de apoio parlamentar.
Bayrou, que teve os seus filhos nesta escola, foi acusado por políticos de esquerda de ter encoberto o escândalo quando era ministro da Educação, entre 1993 e 1997, algo que negou repetidamente.
Os autores da investigação entrevistaram cerca de 140 antigos alunos e membros da congregação, que geria várias escolas, desde o ensino primário ao ensino secundário, em França e África.
Durante a apresentação do relatório, Gustavo Eduardo Agin, superior-geral dos Irmãos de Bétharram, pediu "perdão" em nome da congregação.
Para a reparação das vítimas, foi recomendado "a organização de um tribunal cidadão", dado que a maioria dos abusos denunciados em quase 250 queixas prescreveu devido ao tempo que já passou dos factos; apenas dois homens, um leigo e um membro do clero, foram acusados.
A IFJD apoia a criação de "um mecanismo de reparação financeira", além dos 1,4 milhões de euros em indemnizações pagas pela congregação a 48 vítimas até à data.
A crescente consciencialização sobre a gravidade do que aconteceu na Notre Dame de Betharram levou, entre outras coisas, à aprovação unânime, pelo Parlamento francês, de um projeto de lei contra a violência nas escolas em 01 de junho.
Este projeto de lei, atualmente em tramitação parlamentar, aumenta a supervisão de todos os funcionários em contacto com os alunos e reforça a regulamentação das escolas privadas.