Estará a segurança da Madeira pior pelo facto de ter havido uma agressão com um machado?
A notícia de que um homem agrediu outro, com um machado na cabeça, na freguesia do Caniçal, divulgada na edição on-line do dnoticias.pt de domingo e na edição impressa desta segunda-feira do DIÁRIO, suscitou um conjunto alargado de reacções dos leitores.
Os comentários revelam uma população chocada pela utilização de um machado numa agressão. A reacção mais comum não foi a análise das circunstâncias concretas do caso, mas antes a interpretação do episódio como sintoma de um alegado agravamento da violência na Madeira. Expressões como “Já lá foi o tempo em que podíamos dizer que a Madeira era um cantinho do céu”, “Só continua piorando”, “Está tudo louco” ou “A Madeira já parece o Brasil” ilustram essa percepção.
Mas será a agressão com um machado uma nova forma de violência na Madeira ou trata-se de um fenómeno que já ocorria anteriormente, quer através de ameaças, quer através de agressões consumadas? E poderá um caso isolado servir para demonstrar que a segurança na Região está pior?
A verificação da veracidade da afirmação foi efectuada através da análise de notícias publicadas no DIÁRIO ao longo de três décadas, identificadas a partir da expressão “com um machado”, complementada pela leitura integral dos textos encontrados, de forma a distinguir agressões efectivamente ocorridas na Madeira de casos registados noutras regiões ou de referências sem relação com actos de violência.
A pesquisa permitiu identificar vários episódios envolvendo machados no arquipélago, distribuídos por diferentes períodos temporais.
Um dos casos mais antigos detectados ocorreu na Zona Velha do Funchal, em Dezembro de 2004. Na ocasião, um cidadão angolano é suspeito de ter agredido dois homens, um lituano e um madeirense, utilizando um machado, após um desacato ocorrido à porta de um estabelecimento na Rua Bela de São Tiago. As duas vítimas necessitaram de assistência hospitalar.
Em Fevereiro de 2009, uma mulher de 25 anos foi atingida na cabeça com um machado, na Quinta Grande, concelho de Câmara de Lobos, na sequência de um desacato ocorrido junto de um bar.
Em Setembro de 2016 ocorreu um dos casos mais graves identificados. Uma mulher foi violentamente agredida com um machado nas Escadinhas do Areeiro, em São Martinho, no Funchal. O caso originou posteriormente um processo judicial e resultou na condenação do principal arguido.
Para além das agressões consumadas, foram igualmente detectadas notícias relativas a ameaças com machado. Em 2003, um homem provocou alarme na Ponta do Sol ao circular armado com um machado e ameaçar populares. Em 2019, outro indivíduo foi identificado pela PSP após alegadamente ameaçar uma pessoa com um machado nas imediações do Centro Comercial Anadia. Em 2020, uma mulher denunciou ter sido ameaçada com um machado pelo ex-namorado na zona da Praia Formosa.
O caso agora ocorrido no Caniçal junta-se, assim, a um conjunto de ocorrências semelhantes registadas ao longo de mais de duas décadas.
Importa, contudo, distinguir a existência destes episódios da avaliação global da segurança pública. A identificação de vários casos ao longo de um período superior a trinta anos demonstra que a utilização de machados em agressões ou ameaças não constitui uma realidade inédita na Madeira. Pelo contrário, trata-se de um tipo de ocorrência que, embora raro, já foi noticiado em diferentes épocas e concelhos da Região.
Por outro lado, a existência de um caso mediático não permite, por si só, concluir que a criminalidade esteja a aumentar ou que a segurança esteja pior. Para sustentar essa conclusão seria necessário analisar indicadores estatísticos mais amplos, designadamente a evolução da criminalidade participada, dos crimes violentos e graves, das detenções e das condenações, ao longo de vários anos.
Os dados recolhidos demonstram apenas que episódios envolvendo machados ocorreram antes do caso do Caniçal e que não se trata de uma forma de violência nova ou recentemente introduzida na realidade regional.
Pelo exposto, a afirmação implícita em muitos dos comentários publicados nas redes sociais, segundo a qual a agressão ocorrida no Caniçal demonstraria um agravamento da segurança na Madeira, não encontra sustentação suficiente nos factos disponíveis. O episódio constitui um caso grave e socialmente perturbador, mas a sua existência isolada não permite concluir que a segurança na Região esteja pior. Por essa razão, a afirmação é avaliada como falsa.