Bastonário dos Advogados alerta para pressões sobre as democracias
O bastonário da Ordem dos Advogados alertou hoje para as pressões que as democracias enfrentam, afirmando que a democracia enfraquece quando os direitos "passam a ser vistos como obstáculos".
Discursando na cerimónia dos 100 anos da Ordem dos Advogados (AO), em Lisboa, João Massano disse que "as democracias raramente desaparecem de um dia para o outro. Normalmente, enfraquecem lentamente. Enfraquecem quando os cidadãos deixam de confiar na Justiça, enfraquecem quando os Direitos fundamentais passam a ser vistos como obstáculos".
Para o bastonário, "as democracias enfrentam pressões que poucos imaginavam há apenas duas décadas" com a disseminação de informação falsa, com as tentativas de substituir debates por insultos e intolerância.
Segundo João Massano, é nestes casos que a advocacia "se torna indispensável", quando a independência das instituições é colocada em causa e quando a verdade deixa de importar.
"A verdadeira medida de uma democracia não se encontra na forma como trata os mais fortes. Encontra-se na forma como protege os direitos de todos, incluindo os daqueles com quem não concordamos, daqueles que são mais vulneráveis, daqueles que a opinião pública já condenou antes dos tribunais se pronunciarem", considerou.
O bastonário disse que os desafios da atualidade não são apenas políticos, mas também tecnológicos, indicando que as redes sociais "transformaram radicalmente o espaço público" e influenciam cada vez mais o que as pessoas veem, pensam e como se relacionam umas com as outras.
A manipulação da opinião pública, "a utilização abusiva de dados pessoais", a criação de conteúdos falsos foram alguns riscos associados à revolução tecnológica referidos por João Massano.
O bastonário da OA defendeu que a inteligência artificial não substituirá a advocacia na capacidade de compreender as pessoas, de interpretar contextos, de ponderar valores e de exercer julgamento ético.
João Massano disse ainda que a OA tem de continuar a defender as melhores condições para o exercício da profissão, proteger a independência da advocacia, garantir que os jovens advogados encontram na profissão um futuro digno e de reforçar o acesso dos cidadãos ao Direito e à Justiça.
"Temos de defender a liberdade sempre que ela esteja ameaçada e temos de continuar a construir pontes e consensos, dentro da advocacia e da sociedade portuguesa", acrescentou o bastonário da OA.
O aniversário da Ordem dos Advogados tem sido celebrado em todo o país e continuará a ser assinalado com iniciativas que ainda decorrerão nos Conselhos Regionais da Madeira, dos Açores, de Coimbra e do Porto. A OA irá inaugurar também uma exposição no último trimestre do ano, na Biblioteca Nacional, em Lisboa.
Há 100 anos, em 1926, a ordem tinha 1.720 advogados e hoje é constituída por quase e 38.000 profissionais.