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Madeira

“Recuso aceitar o conceito de overtourism”, afirma Paula Cabaço

Presidente da APRAM destaca cooperação e planeamento no turismo de cruzeiros

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Foto Nélio Silva/ Aspress

O terceiro painel do segundo dia da Grande Conferência do Mar do Jornal Economia do Mar, que decorre no Funchal, foi dedicado ao tema ‘Turismo e o desafio da singularidade’, reunindo representantes do sector marítimo-turístico e da gestão portuária.

A sessão contou com as intervenções de Hugo Bastos, administrador da Mystic Cruises, Paula Cabaço, presidente do Conselho de Administração da APRAM – Administração dos Portos da Região Autónoma da Madeira, Pedro Vieira, director de operações da Lindley, e Frederico Rezende, da RIM.

O debate centrou-se nos desafios da diferenciação do destino Madeira num contexto de crescente competitividade internacional no turismo de cruzeiros e na valorização das infra-estruturas portuárias e serviços associados ao sector.

Desafiada pelo director do Jornal Economia do Mar, Gonçalo Magalhães Collaço, sobre a manutenção da singularidade do destino face à tendência de massificação do turismo, nomeadamente do mercado de cruzeiros, Paula Cabaço sublinhou que a resposta da Madeira passou por uma estratégia de cooperação e planeamento integrado com os parceiros do setor, nomeadamente no contexto pós-pandemia.

A responsável recordou que, durante a crise de Covid-19, o Porto do Funchal foi o primeiro porto nacional a reabrir, na sequência de um trabalho articulado entre a APRAM e as autoridades de saúde, num momento em que a maioria dos portos europeus permanecia encerrada.

“Estávamos em pleno Covid e o Porto da Madeira, fruto do trabalho que a equipa da APRAM fez em conjunto com a autoridade sanitária local, foi o primeiro porto de Portugal a abrir”, afirmou.

Paula Cabaço destacou que a retoma da atividade de cruzeiros exigiu uma abordagem coordenada entre destinos, defendendo que a criação de itinerários depende da articulação entre portos e operadores.

“Vou abrir o porto, mas sem parceiros de itinerário não me serve de nada”, referiu, explicando que contactou os Açores com o objetivo de criar rotas conjuntas que permitissem gerar valor para a região e para o país.

Nesse contexto, sublinhou a criação de um itinerário entre a Madeira e os Açores com a operadora Mystic Cruises, no Dia de Portugal, como um momento simbólico da recuperação do setor e da valorização da “portugalidade” no turismo de cruzeiros.

“No Dia de Portugal, um navio de bandeira portuguesa foi o primeiro a abrir pós-Covid e a criar um itinerário dentro da ‘portugalidade’”, afirmou.

A presidente da APRAM rejeitou ainda a ideia de que o turismo de cruzeiros contribua para fenómenos de sobrecarga turística descontrolada, defendendo que a atividade é altamente planeada e previsível.

“Recuso aceitar o conceito de overtourism”, afirmou, sublinhando que a chegada de passageiros ao Funchal é previamente organizada e distribuída ao longo do território.

A responsável explicou que, em períodos de maior intensidade, o porto pode receber até 12 mil passageiros num único dia, mas que esses fluxos são geridos através de excursões organizadas e escalonadas.

“Nas segundas-feiras da época alta chegamos a ter 12.000 pessoas”, referiu.

Paula Cabaço destacou ainda a importância da coordenação com operadores turísticos e parceiros locais, sublinhando que cerca de metade dos passageiros realiza excursões previamente planeadas, o que permite uma gestão mais eficiente dos fluxos.

Para a responsável, o desafio da singularidade do destino Madeira passa precisamente por manter esse equilíbrio entre atratividade internacional, organização dos fluxos turísticos e qualidade de vida dos residentes, assegurando que o turismo contribui de forma sustentável para a economia regional.

Operadores destacam sustentabilidade e inovação

No mesmo painel, Hugo Bastos sublinhou a dimensão global da operação da Mystic Cruises e o papel do capital humano no setor. “Operamos em zonas remotas do globo, na Antártida e no Ártico, e isso só é possível graças às pessoas e ao capital humano, grande parte dele formado em Portugal”, afirmou, destacando também o investimento em sustentabilidade e reconversão de navios.

Pedro Vieira, da Lindley, alertou para a necessidade de equilíbrio na gestão dos fluxos turísticos nos destinos. “O turismo de cruzeiros só é bom se for bom para quem visita e para quem vive no local. O que temos de fazer é articular cada vez mais com os agentes e com as companhias de cruzeiros”, defendeu, sublinhando a importância da gestão coordenada das excursões e da adaptação das infraestruturas.

Já Frederico Rezende, da RIM, destacou o projeto da marina do Porto Santo como aposta estratégica. “Temos de fazer na marina do Porto Santo uma marina de passagem, com esta mais-valia dos passantes, criando condições ímpares para atrair esses clientes”, afirmou, sublinhando o potencial da ilha enquanto ponto de atração para a náutica de recreio.

No encerramento das intervenções, na parte da manhã, ficou a ideia comum de que o futuro do turismo marítimo e de cruzeiros passa por um equilíbrio entre crescimento, sustentabilidade e gestão integrada dos destinos.