Sindicalista, desde sempre, protagonista logo nos primeiros anos de democracia, a política partidária entra na sua vida através da UDP. Deputada, activista na defesa dos direitos das mulheres, uma voz que marcou décadas de luta. No fim da entrevista que pode ver e ouvir no podcast ‘Rostos da Autonomia’ (https://podcasts.dnoticias.pt/rostos-da-autonomia/), garante que “a luta continua”.
Guida Vieira tinha 24 anos quando aconteceu a Revolução dos Cravos, a 25 de Abril de 1974.
“Estudava à noite na antiga Escola Industrial e Comercial do Funchal, hoje Escola Francisco Franco e, na véspera do 25v de Abril, um cunhado meu foi buscar-me para me dar uma boleia e disse que algo estava a acontecer no continente, que ia acontecer alguma coisa. Disse que iam fazer uma declaração à meia-noite. Cheguei a casa quase a essa hora, a nossa casa era pequenina e estava toda a gente a dormir, mas tinha telefone fixo. Como não podia ligar o rádio, porque ia acordar toda a gente, combinei com o meu cunhado que me ligasse e eu ouvir a declaração. Então foi assim, eu ouvi a declaração das Forças Armadas via telefone fixo. Depois, claro, fui chamar o meu pai e acordei a família toda”, recorda.
Era operária, matizadora numa empresa de bordados e tapeçarias, a Casa Kikieben, estudava à noite e tinha pouca informação política. Mas era filha de um sindicalista e foi assim que se envolveu na luta dos trabalhadores.
Com outras mulheres, luta pela entrada na direcção do Sindicato dos Bordados, até então liderado apenas por homens.
“Nós éramos escravas, ganhávamos ao sabor do que eles queriam e faziam nas empresas o que queriam. Eu por acaso trabalhei numa empresa em que o meu patrão até não era dos piores, era alemão, judeu que tinha vindo refugiado, o senhor Kiekieben, que tinha uma política dentro da empresa diferente. Até isso ajudou porque foi da Casa Kiekieben que saiu um núcleo de trabalhadoras mais activas”.
É no sindicalismo que ganha notoriedade e recebe o convite para aderir à UDP - União Democrática Popular, que será o seu partido e pelo qual se candidatará a várias eleições e entrará no parlamento regional, em 2000, segundo no Funchal numa lista liderada por Paulo Martins, seu marido, companheiro de décadas de luta e de toda uma vida.
Antes disso, viveu os tempos mais complicados pós-Revolução, com os antentados da FLAMA - Frente de Libertação da Madeira que a teve como alvo.
“Vou contar uma coisa real. Fazíamos muitas greves com ocupação das instalações, bloqueando as entradas. Estávamos numa greve, na Madeira Supervia, e ouvimos um estrondo enorme de uma bomba que rebentou. Sabíamos que era uma bomba, só não sabíamos onde e no outro dia soube que foio no carro de uma rapariga, que era professoras mas eles pensavam que o carro era meu porque ela parecidas comigo. Soube isso depois, a bomba era para mim”, recorda.
Mas não foi isso que a fez recuar. “Costumo dizer isto, sobretudo quando vou às escolas, dizem que o medo guarda a vida e, de certa maneira, é verdade, mas eu nunca tive medo no sentido de desistir. Há o medo natural, mas o medo ao ponto de desistir nunca tive e acho que foi isso que me aguentou até hoje, a mim e a outras pessoas”.
E sobre os tempos da FLAMA lembra que “as bombas terminaram quando o dr. Alberto João chegou ao governo”, algo que, lamenta, nunca foi devidamente investigado.
“É preciso que se diga que quem fez o terrorismo, na Madeira, não foi a esquerda, foi feito pela direita, pela FLAMA e por sectores da direita. Nós éramos guerrilheiros de língua, nós falávamos, vínhamos para a rua, reivindicávamos”, garante.
A luta sindical - esteve entre os fundadores da USAM - teve o seu ponto mais importante com a aprovação, só em 1999, da reforma para as bordadeiras de casa. Uma “missão cumprida” que coincide com a sua saída do sindicato.
No parlamento, onde esteve quatro anos, orgulha-se de ter sido “a única operária” deputada e protagonizou confrontos políticos que, com raras excepções, não a impediram de construir amizades com políticos de todos os quadrantes.
A UDP, que teve origem na União dos Povos da Madeira (UPM), esteve sempre no parlamento, onde chegou a ter três deputados e foi, como assume Guida Vieira, um dos dois partidos genuinamente regionais. O outro é o PSD.
“Não tenho dúvidas disso, a UDP era um partido da Autonomia. A UDP propôs, várias vezes, aprovado aqui no parlamento regional e ia para a República para que introduzir, na Constituição, os partidos regionais. Eu era deputada quando foram discutidas as propostas da revisão que seria aprovada em 2004 e eramos só nós e o PSD a defender os partidos regionais, agora há outros que defendem mas, nessa altura, diziam que estávamos loucos”.
Uma Autonomia que, não tem dúvidas, “foi muito importante para a nossa terra, em todos os aspectos e é bom que se diga isso. Pode fazer-se críticas ao desenvolvimento feito, mas a Autonomia deu-nos direito a um parlamento, a um governo próprio, a descentralização dos serviços. Passámos a ter poder sobre os nossos destinos. A Autonomia foi, é, e continua a ser muito importante”.
Uma Autonomia que também teve efeitos negativos para a Região. “Um desenvolvimento desigual, continua a haver muita gente sem nada e outros com muito. Sobretudo o que me preocupa mais é o polvo que foi criado nesta terra, está tudo dependente do governo que controla tudo. O que não controlam hostilizam. Esse é o nosso maior problema, um problema sério que tem de ser encarado e debatido com clareza, sem complexos”.
Hoje, também vê com preocupação o crescimento do populismo e da extrema-direita.
“É um problema mundial. Mais grave no nosso país porque tivemos fascismo durante tantos anos. Ouvir algumas bocas abrirem para dizer tanta estupidez, gente que não viveu, que não sabe o que foi o 25 de Abril, que não sabe o que era ir para a escola descalço, querer comer e não ter o que comer, sabem lá que foi viver o fascismo. Essa gente não sabe nada”, protesta.
A defesa dos direitos das mulheres é a sua grande batalha dos últimos anos.
“Sempre foi, eu trabalhei com mulheres. Fui a primeira mulher, na Madeira, a defender o direito ao aborto, num comício no Parque de Santa Catarina e quase que era morta. Recebi ameaças de morte. Neste momento estou no secretariado da UMAR e sou conselheira honorária do Funchal. A luta continua, tenho 76 anos, tenho tido problemas de saúde, mas enquanto a minha cabeça funcionar vou continuar a fazer o que quero fazer”, termina com seu sorriso inconfundível.