A construção da Autonomia da Madeira não resultou apenas da acção dos protagonistas políticos mais visíveis ou dos grandes momentos de confronto com o poder central. Também dependeu de uma geração de quadros técnicos e administrativos que, nos anos posteriores ao 25 de Abril, participou na criação de estruturas de governo praticamente inexistentes na Região. David Caldeira Ferreira pertence a esse grupo de protagonistas menos mediáticos, mas importantes na consolidação inicial da administração autonómica.
Nascido em Setembro de 1946, no Norte da Madeira, entre São Vicente e o Seixal, cresceu numa sociedade ainda profundamente rural, marcada pela pobreza, pelo isolamento e pela forte emigração. Filho de uma professora primária e de um pequeno agricultor emigrado para a Venezuela, viveu desde cedo uma realidade comum a muitas famílias madeirenses da época. Ainda criança, partiu para a Venezuela ao encontro do pai, ali frequentando a escola durante cerca de dois anos, antes de regressar à Madeira.
O regresso coincidiu com uma fase de continuação dos estudos no Funchal, vivendo durante algum tempo em São Martinho, junto de um tio padre, o padre Caldeira, figura conhecida daquela freguesia. Frequentou o então Liceu Nacional do Funchal, num período em que começava já a formar-se uma geração de jovens madeirenses com maior exposição política e intelectual do que a das décadas anteriores.
Foi nesse contexto que surgiram os primeiros contactos com ambientes oposicionistas ao regime. Entre as figuras que refere como marcantes nesse período encontra-se Vicente Jorge Silva, mais tarde jornalista e fundador do Público. Essa geração liceal viveria depois o impacto da guerra colonial e do desgaste crescente do Estado Novo.
Mais tarde ingressou no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, onde concluiu o curso de Engenharia Química em 1971. A passagem pelo Técnico revelou-se decisiva no seu percurso. O ambiente universitário era fortemente marcado pela contestação política e pela oposição à guerra colonial, num contexto em que as associações académicas desempenhavam importante papel cultural e político.
Durante esses anos conviveu com vários nomes que mais tarde assumiriam relevo nacional, entre eles António Guterres, Mariano Gago e Roberto Carneiro. Pertenceu, assim, a uma geração universitária que atravessou os últimos anos do regime já num ambiente de forte desgaste político e social.
Concluído o curso, foi convidado para assistente do Instituto Superior Técnico, iniciando actividade académica. Pouco depois acabaria, contudo, por seguir outro percurso profissional, ligado ao planeamento económico e financeiro, através do Departamento Central de Planeamento, criado ainda no período marcelista no contexto da aproximação portuguesa à EFTA e da tentativa de modernização económica do País.
Essa experiência técnica revelou-se fundamental para o papel que viria a desempenhar nos primeiros anos da Autonomia. Antes disso, cumpriu serviço militar na Marinha, encontrando-se embarcado numa corveta ao largo de Peniche quando ocorreu o 25 de Abril de 1974. Acompanhou assim, a partir do mar, os momentos de incerteza que marcaram a queda do regime.
Após a Revolução regressou à Madeira para colaborar na Junta de Planeamento Regional, inicialmente por um período limitado. Acabaria, porém, por permanecer na Região e integrar o processo de construção das primeiras estruturas autonómicas.
Participou depois na segunda Junta Governativa presidida por Carlos Azeredo, que mais tarde descreveria como uma espécie de primeiro governo regional provisório, ainda sem legitimidade eleitoral, mas já com poderes efectivos de governação. Trabalhou sobretudo nas áreas do planeamento e das finanças, participando igualmente na elaboração do Estatuto Provisório da Autonomia e no processo de regionalização de vários serviços dependentes de Lisboa.
Ao longo desse período acompanhou uma das fases politicamente mais complexas da história recente da Madeira, marcada pelas tensões do PREC, pela afirmação dos partidos regionais e pela construção das primeiras instituições autonómicas.
Mais tarde desenvolveu actividade política, embora sem alinhamento permanente com o poder regional dominante. Foi deputado pelo PS, participou na vida autárquica, como vereador no Funchal, ao lado de António Trindade e manteve intervenção pública regular em matérias ligadas à economia, autonomia e desenvolvimento regional.
Paralelamente construiu percurso empresarial ligado sobretudo ao turismo e à hotelaria, área em que viria também a assumir relevância regional.
Nas reflexões que tem produzido sobre a evolução da Autonomia, David Caldeira Ferreira destaca frequentemente a conjugação entre autonomia política e integração europeia como factor decisivo para a transformação económica e social da Madeira. Entre as mudanças estruturais mais importantes aponta o fim da Lei da Colónia e a capacidade de a Região passar a decidir localmente sobre matérias fundamentais do seu desenvolvimento.
Mais do que um protagonista de exposição pública permanente, representa uma geração de quadros técnicos e políticos que participou directamente na montagem institucional da Madeira autonómica, num período em que quase tudo estava ainda por construir.