A Elegante Arte de Celebrar a Ignorância
Há decadências que não fazem favor nenhum ao drama. Não chegam com tanques, nem com bandeiras rasgadas, nem com discursos inflamados. Algumas sociedades preferem cair com discrição, quase com boas maneiras, no exato momento em que decidem que pensar dá demasiado trabalho e que a ignorância, afinal, é muito mais “instagramável”.
O conhecimento perdeu prestígio; a banalidade ganhou palco, luzes e patrocínios. Vivemos num tempo em que o especialista compete com o influencer, e perde, não por falta de competência, mas porque não sabe fazer “dancinhas” e “six sevens”. O professor entra numa sala de aula exausto, enquanto a superficialidade acumula milhões de visualizações sem nunca ter lido um parágrafo. O médico é desafiado por teorias científicas produzidas em vídeos de trinta segundos e o intelectual é acusado de arrogância por cometer o pecado mortal de… pensar antes de falar.
A ignorância sempre existiu; a novidade é que agora tem fãs, seguidores e merchandising. E quando uma sociedade começa a ridicularizar quem estuda, quem investiga, quem ensina e quem dedica a vida ao conhecimento, não está apenas a cometer uma injustiça. Está a montar, com todo o cuidado, a sua própria armadilha histórica. Porque nenhuma civilização se sustenta apenas com consumo, entretenimento e frases motivacionais. Em algum momento, alguém terá de saber construir pontes, curar doenças, interpretar leis, preservar memórias, ensinar crianças e, pior ainda, fazer perguntas difíceis.
Mas o nosso tempo desenvolveu alergia à profundidade. O professor tornou-se um sobrevivente administrativo. O médico, um funcionário esmagado por sistemas que tratam pessoas como números. O pensador, uma espécie em vias de extinção, empurrado para margens culturais onde pensar demasiado é considerado falta de educação. Enquanto isso, prospera a cultura da celebridade instantânea, da opinião sem estudo, da convicção sem leitura e da fama sem mérito, um ecossistema perfeito para quem confunde barulho com relevância.
E talvez aqui esteja o verdadeiro perigo: a substituição da autoridade intelectual pela autoridade do algoritmo, esse oráculo moderno que decide o que é verdade com base no número de cliques. Hoje, o mais ouvido raramente é o mais sábio; é apenas o mais ruidoso. A sociedade da informação transformou-se, ironicamente, numa sociedade da distração.
Ainda assim, há sempre uma escolha. Podemos continuar a transformar professores em alvos de desprezo silencioso, cientistas em suspeitos permanentes e a tratar a cultura como luxo e a educação como despesa. Ou podemos recordar uma verdade antiga: nenhuma nação cresce acima da qualidade das pessoas que decide admirar.
No fim, os povos revelam o seu destino pelos aplausos que distribuem.
E, para cúmulo da ironia, até os políticos já aplaudem esta moda, talvez porque a superficialidade, ao contrário do pensamento crítico, nunca lhes pede contas.
Quando os sábios são ignorados e os insignificantes celebrados, o declínio deixa de ser hipótese. Torna-se apenas uma questão de agenda.
Tenho dito!
José Augusto de Sousa Martins