O Festival Eurovisão premeia mesmo apenas músicas comerciais, reggaeton e funk?
A reacção repetiu-se mal Portugal ficou fora da final da Festival Eurovisão da Canção. Nas redes sociais surgiram rapidamente comentários a dizer que Portugal “insiste sempre no mesmo tipo de canções” e que, “se fosse uma porcaria de reggaeton ou funk”, teria passado “direitinho à final”.
A ideia instala-se quase automaticamente sempre que há uma eliminação portuguesa, nomeadamente a de que a Eurovisão deixou de premiar qualidade musical para favorecer apenas músicas comerciais, ritmos fáceis e temas feitos para viralizar.
Mas será mesmo essa a história que os resultados contam?
Curiosamente, nem é preciso recuar muito para encontrar um exemplo que levanta dúvidas sobre essa teoria. Em 2025, a banda madeirense NAPA representou Portugal na Eurovisão com “Deslocado”. Na altura, grande parte das casas de apostas previa a eliminação logo na semifinal. A canção parecia demasiado intimista, demasiado melancólica e pouco “explosiva” para um festival cada vez mais visual e acelerado.
Só que aconteceu precisamente o contrário.
Os NAPA conseguiram qualificar-se para a final, terminando a semifinal no 9.º lugar com 56 pontos. Já na final, Portugal acabaria em 21.º, somando 50 pontos, dos quais 37 atribuídos pelos júris profissionais e 13 pelo televoto.
E “Deslocado” estava muito longe daquilo que normalmente se aponta como fórmula vencedora moderna. A canção foi descrita como indie pop melancólico, indie rock e folk-pop atmosférico, marcada por uma forte carga emocional e pela influência evidente das raízes madeirenses da banda.
A letra falava de deslocação, saudade, pertença e identidade insular. Nada ali encaixava no universo do reggaeton, do funk ou da música descartável tantas vezes apontada nas críticas ao festival. Ainda assim, chegou à final.
E talvez seja precisamente aí que a narrativa comece a perder força.
Porque quando se olha para os vencedores das últimas duas décadas da Festival Eurovisão da Canção percebe-se rapidamente que o concurso esteve longe de ser dominado apenas por músicas comerciais.
O caso mais evidente continua a ser o de Salvador Sobral. Em 2017, Portugal venceu com “Amar Pelos Dois”, uma canção minimalista, delicada e completamente afastada das fórmulas normalmente associadas ao espectáculo eurovisivo. Não havia bailarinos, explosões cénicas, refrões electrónicos nem coreografias desenhadas para TikTok. Havia apenas interpretação, silêncio, emoção e melodia.
E venceu com a maior pontuação da história do festival até então.
Mas também antes e depois disso os vencedores estiveram longe da lógica do “reggaeton ganha sempre”.
Em 2007 venceu a sérvia Marija Šerifović com “Molitva”, uma balada balcânica praticamente despida de espectáculo visual. Em 2009, o norueguês Alexander Rybak triunfou com “Fairytale”, uma mistura folk-pop inspirada na tradição escandinava.
Em 2014, Conchita Wurst venceu com “Rise Like a Phoenix”, uma balada cinematográfica ao estilo James Bond. Em 2016, a ucraniana Jamala ganhou com “1944”, um tema político, melancólico e etnicamente carregado. Em 2019, Duncan Laurence venceu com “Arcade”, uma balada intimista ao piano que só mais tarde explodiria nas plataformas digitais.
Mesmo nos anos em que a Eurovisão premiou propostas mais modernas e visuais, o padrão esteve longe do reggaeton ou do funk. Loreen venceu em 2012 e 2023 com electropop emocionalmente sofisticado. Måneskin ganhou em 2021 com rock cru e energético. Nemo triunfou em 2024 com uma proposta experimental que misturava ópera, rap e electrónica.
Ou seja, quanto mais se olha para os vencedores recentes, mais difícil se torna sustentar a ideia de que o festival recompensa apenas músicas comerciais ou ritmos latinos virais.
O que mudou verdadeiramente talvez não tenha sido o género musical vencedor, mas sim a importância da dimensão televisiva. Hoje contam muito mais o impacto visual imediato, os primeiros segundos da actuação, a realização, a presença em palco e a capacidade de criar ligação instantânea com milhões de espectadores que escutam aquela canção pela primeira vez.
E talvez seja aí que Portugal continue a viver a sua maior dificuldade: encontrar equilíbrio entre autenticidade artística e eficácia televisiva europeia.
Porque a história recente da Eurovisão mostra precisamente o contrário daquilo que muitas vezes se escreve no calor de mais uma eliminação portuguesa. Entre os vencedores das últimas duas décadas encontram-se baladas delicadas, folk tradicional, rock alternativo, heavy metal, hip hop étnico e até ópera contemporânea.
O reggaeton praticamente não existe entre os vencedores modernos do festival.
E o funk, enquanto género dominante, nunca se afirmou verdadeiramente como fórmula vencedora da Eurovisão.