Ainda ser polícia
Os tempos não estão fáceis. As sociedades polarizam-se e a pobreza é uma ferida que, sem cura, se agrava. Enquanto os partidos políticos defendem o seu quintal em vez de solucionarem os problemas, a corrupção e a violência espreitam. O caldo que se prepara nada traz de bom à democracia. E o que tem a polícia a ver com isto? Tudo. As forças de segurança deveriam ser o pilar da paz social, mas quando os problemas se agravam, a tensão explode e os populistas aguçam as garras. Ventura veio a terreiro a misturar alhos com bugalhos, aproveitando o caos para ganhos políticos.
Recentemente, os casos de violência policial nas esquadras do Rato e no Bairro Alto vieram turvar ainda mais as águas. Ser policia hoje é um equilíbrio precário. Se, por um lado, lidam com a marginalidade e o esquecimento político, por outro, não podem tornar-se parte do problema. A violência policial não é apenas um erro de percurso; é um golpe fatal na legitimidade de quem deve proteger.
Quando a farda se confunde com impunidade e abuso, autoridade perde-se e resta apenas o medo. Ser policia ainda é uma missão fundamental, mas exige uma integridade à prova de bala. Daí a importância de investir na formação e num escrutínio rigoroso no recrutamento. O Estado não pode falhar: a violência praticada por agentes corrói a própria democracia que eles deveriam defender.
Carlos Oliveira