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Crónicas

Os rituais do amor ainda importam

Amar alguém é importante. Escolhê-lo de forma consciente é outra coisa.

“Ninguém pode casar sem ter anel de noivado. Casas comigo?”

O mundo parou naquele instante.

Esqueci-me completamente da Praça CR7, em pleno Funchal, da Festa da Flor de 2024, das pessoas à nossa volta e até da fotografia que estávamos prestes a tirar. De repente, deixou de existir ruído, música, movimento ou tempo. Éramos só nós os dois, cristalizados naquele momento.

Ele, um matulão fuzileiro, de joelho no chão, num gesto simultaneamente forte e vulnerável, em sinal de respeito e admiração, um ramo de flores coloridas, vivas, a mão estendida para a minha, um anel entre os dedos e um sorriso cristalino. Um gesto para sempre.

E hoje, precisamente dois anos depois daquele instante junto à Praça CR7, continuo a agradecer ao homem que é hoje o meu marido e que me surpreendeu da forma mais bonita e emocionalmente corajosa. Sim, porque é preciso coragem para amar de forma visível. É preciso vulnerabilidade para ajoelhar diante da pessoa que se ama e perguntar: “Queres construir uma vida comigo?” Ninguém garante o “sim” como resposta.

Há experiências que ultrapassam o instante em que acontecem. Ficam inscritas na identidade emocional de quem nos tornamos depois delas.

E esquecemo-nos tantas vezes disto, quando falamos de compromisso. Um pedido de casamento nunca é apenas sobre um anel, uma fotografia bonita ou uma convenção social. É sobre intenção emocional tornada visível.

Porque quando alguém se ajoelha diante da pessoa que ama, está a fazer muito mais do que um pedido. Está a dizer:

“Eu vejo-te.”

“Eu escolho-te.”

“Eu quero construir contigo.”

Na neurolinguística conhecemos bem a importância das âncoras emocionais. Existem momentos que o cérebro e o corpo registam de forma profunda, experiências que ficam associadas para sempre a uma emoção, a um gesto, a um olhar ou a uma frase. E, anos depois, basta recordar aquele instante para tudo voltar a ser sentido outra vez, quase com a mesma intensidade.

É por isso que nós, seres humanos, precisamos tanto de rituais.

Desde o início da humanidade, cerimónias, alianças e promessas nunca foram apenas tradições sociais. São organizadores emocionais. São formas de o cérebro compreender:

“isto é importante”,

“isto tem intenção”,

“isto tem continuidade”.

Cresci num tempo em que os gestos tinham peso emocional. Um tempo em que as conversas aconteciam olhos nos olhos e os sentimentos não eram vividos atrás de ironias defensivas ou ambiguidades permanentes. A simplicidade não era pobreza, era riqueza de presença, de afetos e de significado.

Hoje, porém, vivemos numa geração que aprendeu a relativizar quase tudo. Relações transformaram-se, muitas vezes, em contratos frágeis de permanência temporária. As pessoas aproximam-se com intensidade, mas afastam-se ao primeiro desconforto. Existe medo de compromisso, medo de vulnerabilidade, medo de precisar verdadeiramente de alguém. Como se amar profundamente diminuísse a liberdade, quando, na verdade, só vínculos seguros permitem verdadeira expansão emocional.

Os maiores especialistas mundiais em relações humanas defendem precisamente a importância de vínculos conscientes e intencionais. Amar alguém é importante. Mas escolher alguém de forma clara, consistente e pública é outra coisa.

O The Gottman Institute, uma das maiores referências mundiais no estudo científico dos relacionamentos, demonstra que os casais mais felizes e duradouros assentam sobretudo numa base de segurança emocional. John Gottman fala da importância de “turning toward” o outro, ou seja, da capacidade de responder emocionalmente à pessoa que amamos e de lhe mostrar repetidamente:

“Estou aqui.”

E poucos gestos traduzem isso de forma tão poderosa como assumir publicamente a construção de uma vida em comum.

A neurociência também ajuda a compreender esta necessidade humana de compromisso. O cérebro procura previsibilidade emocional e segurança relacional. Quando existe intenção assumida, o sistema nervoso tende a relaxar, porque diminui a perceção inconsciente de instabilidade e ameaça. Sentimo-nos mais seguros para amar, investir, vulnerabilizar-nos e construir.

Não porque um papel mágico resolva tudo, mas porque os seres humanos funcionam através de significado, coerência e símbolos.

Viver junto pode ser amor, claro que sim. Mas assumir um compromisso explícito cria uma arquitetura emocional muito mais profunda. Cria direção. Cria pertença. Cria responsabilidade afetiva consciente.

E não, isso não garante eternidade. O amor continua a precisar de cuidado, presença, maturidade emocional e escolhas repetidas diariamente, ao longo do tempo. Mas há uma diferença profunda entre gostar de alguém e escolher alguém de forma inteira.

E arrisco até dizer que, no fundo, todos procuramos exatamente isso: sentir que somos amados de forma consciente, inteira e segura.

É por isso que os pedidos de casamento continuam a tocar tão profundamente a alma humana. Porque precisamos de símbolos. Precisamos de momentos que transformem emoções invisíveis em experiências concretas. Precisamos de marcos que digam:

“isto aconteceu”,

“isto teve significado”,

“isto merece ser lembrado”.

Um homem que se ajoelha diante da mulher que ama, não por submissão, mas por reverência emocional, encerra uma dimensão emocional profundamente transformadora.

Num tempo em que tantas relações vivem protegidas pela ironia, pela ambiguidade ou pelo medo de parecer “demasiado”, ajoelhar-se continua a ser um ato de coragem rara.

Naquele instante, percebi que existia em mim um sonho silencioso que esperei durante 48 anos sem nunca lhe dar nome. Não é apenas uma pergunta. É o momento em que o amor deixa de ser apenas sentimento e se transforma em direção.

É alguém a dizer, olhos nos olhos, diante do mundo:

“Entre todas as possibilidades da minha vida, eu escolho-te a ti.”