Turismo em queda, ICE nas bancadas e bilhetes de luxo fazem a 'Tempestade Perfeita'?
Mundial 2026 nos EUA poderá vir a ser o mais caro, mais inseguro (para visitantes estrangeiros) e de impacto negativo no turismo, ao contrário do que deveria acontecer num evento desta dimensão
A 47 dias do arranque do Campeonato do Mundo de Futebol, que se realizam também no Canadá e no México, é nos Estados Unidos que se centram todas as atenções, pois o país liderado desde há pouco mais de um ano por Donald Trump enfrenta uma crise de imagem turística sem precedentes desde a pandemia, que marcou o final do seu primeiro mandato. As políticas de imigração pela 'mão' do ICE (o Serviço de Imigração e Alfândegas), os preços astronómicos e as ameaças de deportação pairam sobre o maior evento desportivo do planeta.
E este ano ainda com mais razão de ser, pois é a primeira vez que reúne 48 selecções, incluindo Portugal, naquela que poderá ser a última oportunidade do madeirense Cristiano Ronaldo tornar-se Campeão do Mundo. A prova começa a 11 de Junho na Cidade do México e termina a 19 de Julho em Nova Iorque/Nova Jersey. Dos 104 jogos do Mundial FIFA 2026, 78 serão realizadas nos Estados Unidos da América (13 no Canadá, 13 no México) em 11 cidades. Ou seja, 75% dos jogos vão acontecer em território norte-americano.
Como fontes, usamos informação da Tourism Economics (Universidade de Oxford); NTTO / U.S. International Trade Administration; Panrotas/NTTO (dados Fevereiro 2026); American Immigration Council; Al Jazeera; ACLU; Newsweek; ESPN; Skift; Upgraded Points e, também, informação publicada no DIÁRIO de Notícias - Madeira.
Mas será que as políticas de Trump, por si só, são razão para que se possa considerar não viajar para os EUA? Os números mais recentes e as notícias em volta do evento apontam não para um fracasso, mas para muito menor procura do que as expectativas apontavam. Mas, vamos aos factos.
O Contexto Histórico: de Trump a Trump
Para perceber a dimensão do problema, importa enquadrar o turismo internacional nos EUA nas duas presidências de Trump (2017-2021 e desde 20 de Janeiro de 2025) e no interregno de Biden (2021-2025).
O primeiro mandato de Trump não foi, em termos estatísticos, um desastre turístico imediato. Aliás, os números mantiveram-se relativamente estáveis até à pandemia, com cerca de 79,4 milhões de visitantes em 2019, o pico histórico no país. Contudo, a covid-19 provocou uma quebra catastrófica (em todo o mundo, diga-se), reduzindo as chegadas a apenas 19,2 milhões em 2020, com uma queda nos gastos turísticos de 63,5%.
A recuperação pós-pandemia foi gradual mas consistente durante o mandato Biden: os EUA receberam 22,3 milhões de visitantes em 2021, 50,8 milhões em 2022 e 66,34 milhões em 2023, com um aumento de 30,7% face ao ano anterior. Em 2024, os EUA acolheram 72,39 milhões de visitantes internacionais, uma subida de 9,1% face a 2023, embora ainda 8,9% abaixo do pico pré-pandemia de 79,44 milhões em 2019.
Entrava-se em 2025 com ventos favoráveis. O NTTO (Escritório Nacional de Viagens e Turismo) previa que o total de visitantes internacionais chegaria a 77,1 milhões em 2025 e 85 milhões em 2026, ultrapassando os níveis pré-pandemia. Essas projecções, elaboradas antes de Janeiro de 2025 (tomada de posse de Trump foi no dia 20), tornaram-se rapidamente obsoletas.
A Inversão em 2025 e o 'efeito Trump', parte II
O regresso de Trump à Casa Branca em Janeiro de 2025 gerou uma ruptura abrupta nas tendências do turismo receptivo dos EUA.
O turismo internacional para os Estados Unidos caiu 9,4% em 2025 devido às políticas agressivas da administração Trump nas fronteiras — uma reversão total da expectativa anterior de crescimento de 9%. A empresa de análise Tourism Economics, responsável pela previsão, identificou como causa central a alteração da abordagem das autoridades nas fronteiras em relação a turistas com vistos temporários: interrogatórios mais demorados, revista de smartphones, revogação sumária da entrada, detenção e deportação.
Turismo nos EUA passa de crescimento a queda em 2025 devido a políticas de Trump
O turismo internacional para os Estados Unidos deverá cair 9,4% em 2025 devido às políticas agressivas da administração de Donald Trump nas fronteiras, uma reversão total da expectativa anterior de crescimento de 9%.
A partir de Maio de 2025, as chegadas internacionais acumuladas aos EUA registavam uma queda de 2,4% face ao mesmo período de 2024. O país deixou de ser o principal destino turístico mundial em termos de receitas, segundo o presidente da U.S. Travel Association, embora seja apenas o terceiro em termos de entradas de turistas, atrás de França e Espanha. Portugal, com cerca de 29 milhões de turistas não residentes em 2024, não figura no top-10 mundial, apesar do recorde de +9,3% face a 2023. Em termos de receitas estas atingiram um novo máximo histórico em 2024, superando os 27.650 milhões de euros, o que representa um aumento superior a 8,8% face a 2023. Este valor posicionou Portugal como o 5.º país da União Europeia com maiores receitas turísticas. Em 2025 os dados foram ainda melhores, mas não tanto.
A verdade é que ao contrário da maioria dos grandes destinos turísticos, os EUA terão sido dos poucos, quiçá o único, a registar uma queda no número de visitantes estrangeiros em 2025, enquanto o turismo global crescia. O Tourism Economics reviu a sua previsão para uma queda de 8,2% em 2025 — uma melhoria ligeira em relação à estimativa inicial de 9,4%, mas ainda muito aquém dos números pré-pandemia. A análise descreveu o "arrastamento de sentimento" como "severo", observando que as reservas aéreas indicavam que a forte desaceleração do turismo 'inbound' de Maio, Junho e Julho continuaria nos meses seguintes.
O Canadá constitui o caso mais dramático. Entre Março e Abril de 2025, o número de passageiros em voos do Canadá para os EUA caiu 70%, segundo a empresa OAG. As reservas passaram de 1,22 milhões para 296 mil face ao período homólogo. Também as travessias terrestres sofreram: registaram-se menos 500 mil canadianos a visitarem os EUA em Fevereiro.
O World Travel and Tourism Council (Conselho Mundial de Viajens e Turismo) previu que os gastos de visitantes internacionais nos EUA em 2025 seriam cerca de 5% inferiores aos de 2024, e que os EUA seriam o único país, entre os 184 analisados, onde esses gastos diminuiriam.
Fevereiro de 2026 com 'sinais mistos'
Os números mais recentes disponíveis — relativos a Fevereiro de 2026 — revelam um quadro contraditório. As chegadas de visitantes internacionais somaram 2,2 milhões em Fevereiro de 2026, uma alta de 0,8% face a Fevereiro de 2025, atingindo 85,2% do volume pré-pandemia de Fevereiro de 2019. Aparentemente positivo, há um detalhe que contradiz as chegadas de passageiros estrangeiros por via aérea ao país, que totalizaram 4 milhões em Fevereiro de 2026, uma queda de 3% face ao mesmo mês de 2025.
No acumulado dos primeiros dois meses de 2026, o total de visitantes internacionais caiu 1,9% em comparação com o mesmo período do ano anterior. O Canadá continua a liderar as perdas: o tráfego aéreo entre EUA e Canadá em Fevereiro registou uma queda de 9,7% em termos anuais.
Do lado financeiro, os visitantes internacionais gastaram quase 21,5 mil milhões de dólares nos EUA em Fevereiro de 2026, um aumento de 1% face a Fevereiro de 2025, muito desse incremento derivado da inflação galopante. Aliás, no acumulado de Janeiro e Fevereiro, o total de gastos caiu cerca de 1% face ao período homólogo. Em paralelo, os gastos com turismo educacional (estudantes estrangeiros) e de saúde (que procuram o tratamento de saúde de topo, apesar dos custos) registaram uma queda de quase 5%.
Importa, por isso, questionar se a ligeira subida de 0,8% nas chegadas internacionais é real, mas não contraria a tendência estrutural de queda — afinal está-se a comparar com o fraco mês homólogo de 2025, já afectado pelas primeiras semanas de Trump 2.0. Os dados acumulados do ano (-1,9%) são o indicador mais fiável. E ainda nem sequer estávamos com a crise causada pela guerra no Médio Oriente (o ataque dos EUA e Israel ao Irão aconteceu a 28 de Fevereiro). Passados quase mais 2 meses, o impacto estará a ser ainda maior.
A FIFA, o ICE e o Mundial a 47 Dias
Mas antes desses problemas, já há muito que se sentia que haveria um problema de procura no período do Mundial. Neste contexto do Mundial de 2026, com início a 11 de Junho, e que se aproxima a passos largos, acumulam-se os problemas sem precedentes na história da competição.
A administração Trump emitiu dois decretos restringindo a entrada de nacionais de 39 países. Consequentemente, adeptos dessas nações não poderão assistir a jogos do Mundial nos EUA. Entre as 48 selecções qualificadas, os adeptos da Costa do Marfim, do Haiti, do Senegal e , sobretudo, do Irão estão sujeitos à proibição de entrada. Recentemente surgiram, inclusive, tentativas de excluir a selecção iraniana da competição, o que seria inédito.
A 2 de Abril de 2026, foi introduzida um novo entrave: o Departamento de Estado dos EUA alargou o seu 'Programa de Caução de Visto', exigindo que cidadãos ou nacionais de 50 países depositem uma caução de até 15.000 dólares antes de viajar temporariamente para os EUA. Cinco países qualificados para o Mundial — Argélia, Cabo Verde, Costa do Marfim, Senegal e Tunísia — são afectados.
O director interino do ICE, Todd Lyons (entretanto já pediu demissão, cargo que deixa oficialmente a 31 de Maio), confirmou perante uma comissão do Congresso que a sua agência estaria no terreno durante os jogos do Mundial, recusando-se a comprometer-se com uma pausa nas operações de imigração.
FIFA faces pressure to call on Trump to stop ICE raids at 2026 World Cup
The Athletic reports FIFA chief Gianni Infantino is receptive to a proposal to ask Trump for a moratorium on ICE raids.
A FIFA, apanhada entre a sua relação com Trump — o presidente Gianni Infantino atribuiu ao presidente americano o primeiro 'Prémio da Paz FIFA' em Dezembro passado, durante o sorteio do Mundial em Washington — e a pressão crescente das federações e adeptos por todo o mundo, tenta agora negociar uma moratória.
FIFA e Casa Branca terão chegado a um entendimento informal durante o FIFA Club World Cup (o Mundial de Clubes vencido pelo Chelsea e que teve presença de Benfica e Porto) do verão passado, com o ICE a não realizar operações junto dos recintos. Funcionários esperam um acordo semelhante para o Mundial, mas a escala do torneio torna a questão mais complexa.
Mais de 120 organizações, incluindo a ACLU (União Americana pelas Liberdades Civis) e a Repórteres Sem Fronteiras (RSF), emitiram um aviso de viagem para os EUA, apelando a adeptos, jogadores, jornalistas e visitantes para exercerem cautela. O aviso especifica que os adeptos de comunidades imigrantes no país, minorias étnicas e pessoas LGBTQ+ enfrentam riscos desproporcionados.
ACLU Joins Coalition Calling For FIFA to Uphold Human Rights Ahead 2026 World Cup
The coalition has issued a travel advisory calling on fans, players, journalists, and other visitors to exercise caution when traveling to the U.S. for the 2026 World Cup amid the Trump administration’s militarized immigration crackdown.
Como referido, existe ainda a incerteza sobre a participação da selecção iraniana no Mundial. Embora as selecções nacionais sejam normalmente isentas das proibições de viagem, as declarações do próprio Trump numa publicação na sua rede Truth Social, frisando que não poderia não conseguir garantir a segurança dos jogadores iranianos caso viajem para os EUA, tornam a situação imprevisível. Muitos já falam em boicotar a prova, não só os adeptos, mas as suas próprias selecções, caso essa exclusão venha a acontecer.
Por fim, além do clima político, somam-se preços que desafiam qualquer orçamento, mesmo para contas bancárias mais folgadas. O bilhete mais caro para a final custa quase 11.000 dólares. Quando as primeiras vendas arrancaram em Dezembro, os preços iam dos 140 dólares (categoria 3) aos 8.680 dólares (final). O projecto da candidatura norte-americana prometia inicialmente bilhetes a partir de 21 dólares; os bilhetes mais baratos disponibilizados — a 60 dólares — foram introduzidos como nova categoria em Dezembro de 2025, após protestos generalizados, mas em quantidade limitada. As pré-reservas de 500 milhões de bilhetes, quando no máximo há 6 milhões de unidades disponíveis para os 104 jogos, deram esperança à FIFA que, afinal, haverá procura suficiente.
No mercado de revenda, recentemente surgiram notícias de que alguns bilhetes para a final de 19 de Julho ultrapassam os 2 milhões de dólares (mais de 1,7 milhões de euros). Quase 70 membros do Congresso norte-americano escreveram ao presidente da FIFA, Gianni Infantino, expressando "grande preocupação" com os custos crescentes para adeptos e cidades anfitriãs. As 11 cidades anfitriãs estão a introduzir ou a aumentar impostos sobre alojamentos, transportes e outros serviços, o que só vem encarecer a estadia dos turistas que se atreverem a viajar para lá.
O Mundial de 2026 está a caminho de ser a edição mais cara de sempre: bilhetes, hotéis, transportes e merchandising estão todos acima da inflação. A título comparativo: no último Mundial realizado nos EUA, em 1994 (há 36 anos, é certo), os bilhetes de categoria 1 para jogos da selecção americana custavam 50 dólares — equivalentes a 112 dólares actuais, ajustada a inflação. O bilhete equivalente em 2026 custa 700 dólares (597 euros).
Prós, contras e ameaças
Concluindo, listemos os argumentos favoráveis à realização do Mundial nos EUA (posição da administração Trump e FIFA), em oposição aos argumentos desfavoráveis.
Prós:
- Os EUA dispõem de infra-estruturas desportivas de topo e onze cidades anfitriãs com capacidade logística.
- A Casa Branca projecta um impacto económico de milhares de milhões de dólares e centenas de milhares de empregos.
- Após críticas às operações do ICE no Minnesota, Trump retirou 700 agentes, sinalizando alguma flexibilidade.
- O turismo interno nos EUA, Canadá, México mantém potencial de compensar quebras internacionais.
Contras:
- Proibições de viagem a 39 países excluem adeptos de várias selecções participantes.
- Caução de 15.000 dólares para nacionais de 50 países, incluindo cinco com selecções qualificadas.
- Presença confirmada do ICE nos estádios, sem garantias de não-detenção de visitantes.
- Portugal juntou-se, em 28 de Março de 2025, aos países que actualizaram as recomendações de viagem, com advertências específicas sobre identidade de género e o facto de um visto não garantir entrada automática.
- Preços de bilhetes, hotéis e transporte sem precedentes, potencialmente expulsando adeptos de rendimentos médios.
- A Tourism Economics estimou que um em cada quatro canadianos que habitualmente visitaria os EUA este ano optou por não o fazer.