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Resort (de luxo)

As belas estradas e dezenas túneis, outrora motivo de orgulho, estão hoje entupidas de trânsito

Há quem descreva a ilha da Madeira como “um paraíso no meio do Atlântico”. Eu descrevo-a – cada vez mais – como um “resort de luxo”, não porque tenha perdido o encanto natural que sempre a distinguiu (e, inclusive, a galardoou numerosas vezes), mas porque, nos últimos anos, a ilha parece ter sido convertida num produto turístico de alto valor, pensado para quem chega de fora e não para quem cá nasceu, vive e trabalha todos os dias.

Com aproximadamente 741 km², a Madeira continua a ser um território de beleza surpreendente e deslumbrante: montanhas que se erguem do mar como muralhas vivas; florestas que a UNESCO reconheceu, tem mais de mais de 25 anos, como Património Mundial único (a Laurissilva é admirável e inigualável, assim como as levadas que transportam a água do norte, que é chuvoso/húmido, para o sul); os numerosos vales e as praias do norte e sul da ilha que seduzem os visitantes de todos os continentes e que são artigos de revistas em (quase) todo o mundo… Condensando, a sua fama internacional não é consequência do acaso; é fruto de um povo humilde, trabalhador e honesto, que durante séculos concebeu riqueza, primeiro através da agricultura (desde a produção da cana de açúcar – o “ouro branco” do século XVI – ao vinho Madeira), depois o comércio, o turismo e mais recentemente o fornecimento de múltiplos serviços na área das novas tecnologias (TIC). Mas esta riqueza, segundo muitos madeirenses, não está a ser distribuída de forma justa (equitativa).

O contraste entre o que a ilha oferece e o que a população recebe nunca foi tão evidente. Quem viveu aqui vinte anos – como eu – reconhece que os últimos tempos trouxeram uma mudança acelerada, quase irreconhecível. Uma transformação que muitos descrevem como inevitável, mas que está a descaracterizar (aos poucos) a Madeira e a concentrar benefícios num círculo restrito de grupos económicos bem conhecidos e em figuras próximas da cúpula política que governa a Região há mais de uma década.

Enquanto tudo isto sucede, aos olhos de todos os que querem ver, aquilo que era bom está a deixar de o ser.

As belas estradas e dezenas túneis, outrora motivo de orgulho, estão hoje entupidas de trânsito e muitas delas esburacadas, especialmente na cidade do Funchal. A Educação, que já foi referência nacional, enfrenta a carência/desistência de professores e a fuga dos melhores alunos para o continente nacional e/ou para o estrangeiro. A Saúde vive um declínio preocupante, com cirurgias e tratamentos adiados, falta de medicamentos e escassez de médicos de família e noutras relevantes especialidades. E o custo de vida, esse (infelizmente) cresce a um ritmo que a população residente não consegue acompanhar, apesar da remuneração bruta total mensal média no arquipélago ter tido um crescimento significativo em 2025 e inícios de 2026 (cerca de 1.473 a 1.530 euros), mas todos sabemos que parte substancial da população aufere apenas o salário mínimo regional.

O turismo, grande motor económico da Região, traz agora visitantes com enorme capacidade financeira, para quem tudo parece barato. Contudo, para quem aqui nasceu e teima em ficar, a realidade é outra: preços de habitação incomportáveis, rendas que duplicam, bens essenciais que encarecem semana após semana. A Madeira tornou-se um destino de luxo para quem chega, mas também num lugar cada vez mais difícil para quem fica.

É um paradoxo doloroso: uma ilha vendida como um “resort exclusivo”, com campos de golfe promovidos a clientes estrangeiros, dezenas de hotéis de cinco estrelas e experiências “premium”, mas que simultaneamente é – segundo dados divulgados recentemente – a segunda região com a maior taxa de pobreza e desigualdade do país. Todos reconhecem esta contradição, mas quem governa há mais de uma década parece incapaz, ou sem vontade, de a resolver. Quem hoje governa fantasiou uma ilha dentro da ilha e dela teima em não querer sair.

Há quem diga que a população é vítima de uma liderança política que se perpetua no poder. Há também quem reconheça que, em cinquenta anos de autonomia (e democracia), a Região nunca quis experimentar a alternância. E quando não se muda, corre-se o risco de ficarmos reféns da própria escolha… talvez seja este o caso!

A Madeira tem futuro – disso eu e ninguém duvida! Mas muitos madeirenses acreditam que esse futuro não surgirá com a atual liderança política (e a curto/médio prazo), nem com uma visão mercantilista que transformou a ilha num produto, esquecendo os cidadãos que lhe dão alma/vida. O abismo em que no presente a ilha está não assomou de repente; tem um passado, foi construído ao longo de décadas e só será ultrapassado com copiosa coragem, vontade efetiva de mudança e uma nova forma de pensar. Até lá, a ilha da Madeira continuará a ser um “resort de luxo”…, mas apenas para alguns.