Bibliotecas perseguidas pela ditadura na Madeira
A perseguição efectiva levada a cabo pela polícia política do Estado Novo contra consciências diferentes de ver e olhar o regime da ditadura, foi em muitos casos acompanhada, de ações de confiscação de livros de bibliotecas particulares, configurando uma forma de repressão contra a liberdade individual dos portugueses, nas suas limitadas opções de leitura. Este tipo de controle político foi, a meu ver, um género de holocausto intelectual, contra o sonho dessas diferentes formas de pensar o País no seu conjunto, levando aos degredos da repressão centenas homens e mulheres que, apenas, ansiavam por aquela “Madrugada que eu esperava” como imortalizou a nossa Sofia Mello Breyner. Alem disso, fervilhava nas bibliotecas particulares de vários cidadãos, muitos deles, presos políticos, os livros da condução de um País novo e moderno onde a esperança daquele “Dia inicial inteiro e limpo” fosse a proa iluminante do acesso a todos os portugueses à saúde, à educação e à cultura. Fosse o Dia de partida e de recomeçar todo de novo, deixando para trás a nação oprimida pela ditadura marcelista. Neste âmbito, o preço foi bastante caro para muitos cidadãos de pensamento coerente e vertical, condição que lhes valeu serem perseguidos, torturados e assassinados pelos degredos e calaboiços do País. Felizmente, que aquele dia chegou “Onde emergimos da noite e do silêncio” e o povo oprimido se libertou da escuridão do fascismo e se livrou do confisco aos livros proibidos pela ditadura, quase sempre ocultos no escuro das caves, dos sótãos e, por estranho que pareça, dos êmpenos de palheiros de gado, como aqueles que foram encontrados um palheiro, situado no sítio da Ribeira Seca-Machico, entre manchos de feno e de palhas secas destinados ao alimento do gado.
O achado, ocorrido nos finais da década de 70, foi narrado por José, um dos primeiros residentes desta localidade a frequentar o Liceu do Funchal. O seu relato, narrado com alguma contenção, foi emocionado e perplexo pela originalidade da surpresa - a descoberta daquele montão de livros, num espaço onde procurava abrigo das chuvas, de uma manhã fria de fevereiro. O susto, foi de tal ordem, que impossibilitou-o de quantificar e identificar o número de obras ali existentes e de compreender o envolvimento daquele estranho achado. Assegurou, que perante aquele anómalo caso sentiu algum medo, nomeadamente, quando deu por si a pensar na hipótese daqueles livros terem sido roubados e, poder vir ser acusado de ter sido o autor daquela insólita descoberta. Além disso, admitiu ter ficado estupefacto, pelo facto, daquele incidente ocorrer numa terra com um nível de escolarização muito baixa e avessa a hábitos de leitura como, aliais, eram todos os núcleos populacionais da Madeira profunda, até as décadas de oitenta e noventa do século passado. Revelou que, apoderou-se de uma das obras ali mergulhadas no feno, intitulada: Questões da Doutrina Marxista-Leninista e que lhe despertou curiosidade. Pois, tratava-se de uma obra, cuja temática tinha sido abordada pelo seu professor, nas últimas aulas de filosofia. Anos mais tarde, desfez-se do livro, oferecendo o mesmo ao signatário deste trabalho, o qual, tem dedicado algum tempo a investigar os meandros daquela biblioteca perdida e os motivos que a levaram a desaparecer, dias mais tarde, daquele lugar. Entretanto, os dados recolhidos até o presente momento, apontam tratar-se de uma biblioteca perseguida pela polícia da censura literária antes do 25 de Abril, uma hipótese com algum fundamento e com algum peso de aceitação no campo das evidencias. Contudo, poderá não corresponder à verdade dos factos, tendo em conta, que a Madeira se encontrava numa convulsão política, com partidos de direita e de esquerda extremados, e, sobretudo, com o terror das investidas da FLAMA contra pessoas, bens materiais e instituições. Na verdade, esta organização paramilitar, instaurou na ilha um clima de insegurança, ao ponto de ter perpetrado entre os anos de 1975 e 78 um PREC armado, com mais de 70 ataques bombistas, na sua maioria, ocorridos na cidade do Funchal. Curioso ou não, foi no período de atuação da FLAMA, que se deu o achado daqueles livros, numa localidade fora do raio de acção da cidade do Funchal, onde se concentrava a maior atividade terrorista desta organização. Aqui, nasce um novo dado de investigação, que não deve ser menosprezado, tendo em conta, que esta organização, tinha também na dioptria dos seus atentados, alvos fora do Funchal, particularmente em Machico. Segundo algumas fontes não oficiais, a igreja da Ribeira Seca, era um desses alvos, com a intenção de refrear as iniciativas revolucionárias da população local. O suposto atentado não ocorreu, porque o povo se organizava em piquetes de vigilância ao longo do período mais ativo desta organização paramilitar. Por conseguinte, no seio de todas estas circunstâncias, poderá residir a chave do enigma sobre o achado daqueles livros, num palheiro de gado. Tudo isto, promete um desenvolvimento interessante e emocionante para o estudo das bibliotecas perseguidas pela ditadura, na ilha da Madeira.
Severino Olim