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Assembleia Legislativa Madeira

Sara Madalena evoca vida das mulheres e avisa: "Não queiram ressuscitar figuras sinistras do passado"

Deputada centrista usou a sessão comemorativa da Assembleia Legislativa da Madeira para denunciar a misoginia da ditadura e defender a liberdade conquistada pelas mulheres após o 25 de Abril de 1974 e o 25 de Novembro de 1975.

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A deputada Sara Madalena (CDS) marcou a sessão comemorativa do 52.º aniversário do 25 de Abril na Assembleia Legislativa da Madeira com um discurso centrado na condição feminina, traçando um retrato da vida das mulheres sob a ditadura e sublinhando as liberdades conquistadas após a Revolução dos Cravos.

A deputada centrista começou por evocar o significado da data: "Reunimo-nos na casa da democracia madeirense para homenagear todos aqueles que contribuíram com a sua coragem, com a sua experiência, com as suas flores, mas também com as suas vidas para que uma ditadura demasiado longa tivesse o seu fim".

Num tom firme, Sara Madalena afirmou que todos os regimes tirânicos são de repudiar e condenar, deixando um aviso claro contra eventuais tentativas de reabilitação do passado autoritário: "Não queiram ressuscitar figuras sinistras do nosso passado colectivo."

A única representante do CDS descreveu com detalhe o modelo feminino imposto pela ditadura: a mulher "perfeita" seria aquela que, de preferência sem instrução, se resignava ao lar, aos filhos que viessem — sem planeamento familiar — e a um casamento por conformidade. Recordou que, na década de 1960, uma mulher não podia viajar, trabalhar ou sequer abrir correspondência sem autorização do marido, e que profissões como enfermeira ou hospedeira de bordo lhes eram, na prática, vedadas se fossem casadas. Fez ainda referência à família como pilar de controlo ideológico do regime — com a Mocidade Portuguesa, a missa dominical e um Deus ensinado pelo medo — e denunciou a misoginia como instrumento deliberado de dominação do povo.

Ligando a data da revolução com os 50 anos da Autonomia da Madeira, a deputada sublinhou que as mulheres dos arquipélagos viveram a opressão "a dobrar", privadas muitas vezes de abandonar a ilha para estudar e forçadas a conformar-se com o que havia ou com o que o destino lhes reservava. "Dou graças a Deus por ser filha de Abril e filha de Novembro", exclamou a porta-voz do CDS.

Num momento mais pessoal, Sara Madalena celebrou as liberdades que a democracia trouxe às mulheres — estudar, dizer, casar, conduzir, vestir — sem pedir licença a ninguém. Não deixou, porém, de alertar para alguns retrocessos nos nossos dias, criticando quem justifica em horário nobre na televisão actos de violência sobre mulheres.

O discurso terminou com uma nota sobre a pluralidade democrática, numa alusão velada à polémica em torno da sua participação na coligação com o PSD, que lhe valeu críticas: "Pena que, uma vez chamada mulher de Abril por outra mulher de esquerda, tenha perdido o título quando aceitei participar deste projecto democrático que é a coligação. Que título tão selectivo, que liberdade tão julgadora", concluiu, apelando a que todos os "filhos de Abril" saibam respeitar o legado da revolução de 1974.