Será que os estrangeiros que vêm viver para a Madeira devem indignar-se com o preço da luz?
Uma cidadã estrangeira, residente na Madeira há vários meses, partilhou na plataforma Reddit um comentário em jeito de desabafo e de protesto depois de receber uma factura mensal da Empresa de Electricidade da Madeira (EEM) no valor de 147,95 euros, referente ao consumo de energia eléctrica em Março. Indignada, a mulher explica que o objectivo da sua publicação é “principalmente expressar incredulidade com o facto de tantas pessoas considerarem Portugal um local barato” mas depois são confrontadas com facturas como aquela que recebeu e que as levam a “se sentirem enganadas e ludibriadas”. A cidadã junta uma imagem da factura como prova da situação que descreve.
Mas será que a generalidade dos estrangeiros que escolhe a Madeira como local para viver e trabalhar tem mesmo razões de queixa do tarifário da energia eléctrica?
Pouco sabemos sobre a autora do comentário publicado no Reddit. Afirma que vive sozinha na habitação à qual está associado o contrato de electricidade, que trabalha no sector hospitalar e que ganha um salário dentro da média regional. Faz referências à África do Sul, mas não é clara sobre se aquele é o seu país de origem. Não dispomos, pois, de elementos que permitam comparar as condições tarifárias a que já esteve vinculada no passado.
Mas há dados que permitem comparar os tarifários de cerca de 30 países europeus, que constituem boa parte da população estrangeira residente no nosso arquipélago. Antes de mais, há que assinalar que embora a EEM seja uma empresa pública e detida pela Região Autónoma da Madeira, os seus tarifários são definidos pela Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) e que desde o ano 2004 que os preços médios da energia eléctrica são iguais na Madeira, Açores e Portugal Continental. Assim, os valores que vão servir de referência são os praticados no mercado regulado nacional.
A mais recente análise comparativa dos preços de energia eléctrica na União Europeia e em mais alguns países associados foi publicada pelo Eurostat em Outubro de 2025 e reporta-se a dados do primeiro semestre do ano passado. De acordo com aquela entidade, o preço médio europeu no primeiro semestre de 2025 — uma média ponderada utilizando os dados mais recentes (2023) sobre o consumo de electricidade pelos consumidores domésticos — foi de 0,2872 euros por quilowatts-hora (kWh). O preço em Portugal situou-se ligeiramente abaixo dessa média europeia. Para os consumidores domésticos na UE (consumidores médios com um consumo anual entre 2.500 e 5.000 kWh), os preços da electricidade naquele período foram mais elevados na Alemanha (0,3835 euros por kWh), na Bélgica (0,3571 euros por kWh), na Dinamarca (0,3485 euros por kWh) e em Itália (0,3291 euros por kWh) (ver imagem em anexo). Os preços mais baixos foram observados na Hungria (0,1040 euros por kWh), em Malta (0,1244 euros por kWh) e na Bulgária (0,1300 euros por kWh). Para os consumidores domésticos alemães, o custo por kWh foi 34 % superior ao preço médio da UE, enquanto os agregados familiares na Hungria, em Malta e na Bulgária pagaram menos de metade do preço médio da UE.
Na mesma análise é feita uma ponderação dos preços da electricidade em termos de paridade de poder de compra (PPC) para os consumidores domésticos, sendo os países agrupados em 5 categorias, com categorias de preços da electricidade que variam entre mais de 35 PPC por 100 kWh e menos de 20 PPC por 100 kWh. Os preços da electricidade baseados em PPC foram mais elevados na República Checa (39,16), na Polónia (34,96) e em Itália (34,40). Os preços mais baixos da electricidade com base no poder de compra foram observados em Malta (13,68), na Hungria (15,01) e na Finlândia (18,70). Portugal situa-se numa posição intermédia, com 28,99.
Tendo em conta estes dados, em que Portugal apresenta tarifários de energia eléctrica que não se afastam muito dos preços médios praticados em cerca de 30 outros países europeus, não é sustentável a afirmação de que as pessoas estrangeiras que vêm viver para a Madeira podem sentir-se “enganadas e ludibriadas” com as facturas de consumo de electricidade.
Não significa isto, de forma alguma, que a citada cidadã tenha de encarar com normalidade uma factura mensal no valor de 147,95 euros. No entanto, como assinalaram outros cidadãos que comentaram o caso no Reddit, a referida factura apresenta um valor muito superior ao padrão visível num gráfico patente no mesmo documento. “Você pagou três vezes mais em Março do que nos cinco meses anteriores. Algo está claramente errado. Você deve entrar em contacto com a empresa para perguntar o motivo. Além disso, faça um favor a si mesma e não espalhe mentiras sobre o país. Você pagou cerca de 50 euros entre Outubro e Fevereiro, o que certamente não pode ser considerado caro”, referiu um dos comentadores.