Entre o lucro e o direito de viver numa ilha
Há coisas que só quem vive numa ilha entende. Para quem está na Madeira, o avião não é luxo, é estrada. É consulta médica, é família, é trabalho. E quando a “estrada” custa centenas de euros e ainda obriga a esperar por reembolsos, algo está errado.
O modelo atual de mobilidade aérea para os residentes tem um problema evidente: pede-se às pessoas que paguem tudo à frente e depois esperem. Num país normal, isto não faria sentido em nenhum outro serviço essencial. Porque é que aqui se aceita?
A proposta de pagar apenas até um tecto máximo, deixando o acerto de contas entre Estado e companhias, não é nenhuma extravagância. É, no fundo, uma questão de bom senso. Protege quem vive na ilha sem impedir que as empresas recebam o valor total do bilhete. Mas, como já se viu, há resistências.
Companhias como a Ryanair e a easyJet baseiam o seu modelo em simplicidade e liquidez imediata. Não gostam de depender de terceiros para receber parte do dinheiro, nem de burocracias adicionais. É compreensível, mas não pode ser decisivo.
Porque há aqui um princípio maior: o da continuidade territorial. Um país que se leva a sério não pode aceitar que uma parte dos seus cidadãos fique, na prática, penalizada por viver fora do continente. A mobilidade não é um privilégio, é uma condição básica de igualdade.
Dito isto, também não vale fingir que o mercado não reage. Se as regras forem impostas sem equilíbrio, o risco é claro: menos companhias, menos voos, preços ainda mais altos. Já vimos este filme noutros contextos. A solução não passa por apertar até partir, passa por construir um sistema que funcione para ambos os lados.
E isso exige uma coisa simples, mas muitas vezes esquecida: confiança. Se o Estado quer que as companhias aceitem este modelo, tem de garantir pagamentos rápidos, sem atrasos nem labirintos administrativos. Caso contrário, o receio das empresas deixa de ser teórico e passa a ser uma certeza.
Aqui, o papel da TAP Air Portugal pode ser determinante. Não como monopolista, mas como garante mínimo de ligação. Porque há rotas que não podem ficar reféns apenas da lógica do lucro imediato.
No fim do dia, a pergunta é simples: para que serve o país? Se é apenas para funcionar como um mercado, então ganha quem tem mais força negocial. Mas se é também para garantir coesão e justiça, então há linhas que não se podem ultrapassar.
Os residentes da Madeira não pedem favores. Pedem o básico: poder sair e entrar na sua própria terra sem serem tratados como clientes de segunda. E isso, convenhamos, não devia ser tema de discussão, devia ser ponto de partida.
António Rosa Santos